Apesar das reduções, o conjunto das ciências ensinadas nos anos trinta em Al-Qarauiyín aparecia como edifício unido, ao contrário da universidade moderna fragmentada em disciplinas que frequentemente divergem, pois língua, lógica, direito, moral e teologia convergiam ao mesmo fim e derivavam do Corão e do Hadîth.
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O zelo dos gramáticos em discutir longamente um verbo ou uma palavra corresponde ao cuidado com uma língua que serviu de recipiente à revelação divina e por isso preserva profundidade e elegância superiores às línguas profanas.
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A minúcia dos especialistas do hadîth ao examinar o isnad, apoiada numa memória prodigiosa, corresponde à necessidade de pesar com “balança de ouro” a autenticidade de palavras das quais depende a vida da comunidade e do indivíduo.
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O estilo de ensino em Al-Qarauiyín podia parecer racionalista e legista, às vezes como discussão jurídica entre mestre e discípulo, e embora isso seja legítimo pelo lugar central da sharî‘ah e do fiqh, no kalam poderia parecer esquemático diante da Realidade infinita.
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Esse racionalismo era apenas superficial e provisório, pois os ulamâ não faziam da razão medida de tudo como faz a ciência moderna, e a diferença central é que no fiqh a razão traduz a realidade na medida em que se abre à revelação, enquanto no racionalismo moderno tudo deve ser explicado somente pela razão.
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Nos melhores sábios de Fez, a rotina jurídica era temperada por viva consciência da fragilidade humana, produzindo precaução constante e dignidade, com influência formativa sobre alunos e também sobre o povo que assistia aos cursos.
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A abertura e generosidade da instrução beneficiavam a cidade, e a relação professor-aluno era humana e fundada na confiança, com trabalho muitas vezes por amor à ciência, professores com salário modesto ou nenhum e sustento por ofícios paralelos ou dádivas de cidadãos ricos.
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Em certos momentos liam-se e comentavam-se clássicos do sufismo (al-Tasawwuf), como Ihyâ ‘ulûm ad dîn de al-Gazzâlî, que em Marrrocos reconciliava fiqh e tasawwuf, Lei e mística, ‘ilm azh zhahir e ‘ilm al bâtin, embora em geral os professores fossem reservados diante do sufismo.
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No protetorado, a reserva aumentou pela oposição política entre o meio universitário e as confrarias (turûq), explorada pela administração colonial, pois as confrarias, forma popular do sufismo, eram agrupamentos suscetíveis a pressões e muitas careciam de verdadeiros mestres espirituais, substituídos por chefes nominais por herança de sangue.
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Os verdadeiros mestres espirituais, ainda existentes, mantinham-se afastados da política e de grandes movimentos coletivos, cercando-se de poucos discípulos, e nesses meios mais isolados se ensinava o verdadeiro tasawwuf.
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Sempre houve sábios de Al-Qarauiyín que reconheciam a validade do sufismo porque o fiqh não abarca todas as dimensões do dîn, e o hadîth de Jibrîl distingue al-islâm, al-imân e al-ihsân, sendo este último a virtude espiritual e a vida contemplativa.
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Al-ihsân é definido pelas palavras do Profeta como adorar a Deus “como se o visses”, e se não o vês, saber que Ele te vê, o que exige presença total no ato de adoração e conduz a uma “ciência do coração”.
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A presença do homem inteiro no culto abre-se à presença de Deus no homem, e o tasawwuf se desenvolve a partir da exigência de sinceridade (ijlâs), que conduz logicamente à conversão (tawbah) do ser e a uma inversão interior em que o eu é visto pelo olho do espírito.
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A máxima atribuída a um hadîth, “quem conhece sua própria alma conhece seu Senhor” (man ‘arafa nafsahu faqad ‘arafa rabbah), sintetiza a passagem de ver tudo pelo olho do ego para ver o ego pelo olho do espírito que julga e transcende.
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O duplo testemunho islâmico, “não há divindade fora de Deus” e “Mohammed é o enviado de Deus”, é levado pelo tasawwuf ao máximo significado, exigindo sinceridade perfeita e culminando no apagamento de mundo e ego diante do absoluto, sendo o ego simultaneamente reflexo e véu (hiyab).
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As confrarias, embora populares, guardavam tesouros espirituais e liam tratados como os Hikam de Ibn ‘Atâi-Llâh e poemas de Ibn al-Fârid, Shushtarî e outros, cantados no dhikr, e tais verdades podem ser mais bem compreendidas por homens simples do que por sábios, pois a inteligência do coração difere da do cérebro.
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Marrocos é descrito como terra de sufis, herdeira de mestres que vieram da Espanha para a África, e mesmo quando a Europa vivia vitórias do materialismo, houve no Marrocos nova floração contemplativa, com mestres como al-‘Arabî ad-Darqâwî e al-Harrâq representando o tasawwuf mais puro.
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A medicina tradicional, ensinada à margem de Al-Qarauiyín, foi desterrada no protetorado francês por desprezo europeu das ciências “medievais”, mas continuou clandestina e sua perda seria lamentável, pois unia inúmeras experiências a uma visão de síntese invejável para a medicina moderna.
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A medicina greco-árabe, herdada dos gregos e enriquecida pelos árabes, liga-se ao universo intelectual islâmico por uma visão de unidade-totalidade-equilíbrio, e seu princípio é o equilíbrio dos quatro humores análogos aos quatro elementos, cuja ruptura gera doença e cuja restauração orienta a arte médica.
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A natureza atua por forças complementares que retemperam calor/frio e umidade/sequidão, ou expansão/contração e dissolução/coagulação, e o médico procede por correspondências, usando sobretudo matérias vegetais e plantas, muitas presentes na medicina popular, como alimentos absorvidos espontaneamente pelo corpo.
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Ao mencionar a medicina, surge a alquimia como ciência ou arte pré-islâmica integrada espiritualmente ao Islã e praticada em Fez até época recente, sendo comuns ideias falsas que a reduzem a superstição voltada à transmutação ilusória de chumbo em ouro.
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A aparência “fumista” frequentemente ocultava a verdadeira alquimia, em que o chumbo simboliza a alma no caos das paixões e o ouro simboliza a natureza original do homem, com o corpo enobrecido e transfigurado pela vida do espírito, e cada metal vil é um “ouro doente” em contraste com o ouro como equilíbrio perfeito.
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Correspondência com princípios da medicina tradicional.
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Alquimia como medicina do homem total: corpo, alma e espírito.
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O uso de símbolos metalúrgicos e procedimentos químicos estranhos se justifica por os ofícios do fogo existirem e oferecerem, de modo natural ou providencial, linguagem adequada para estados e transformações íntimos da alma.
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Um episódio pessoal menciona a redação de um livro sobre alquimia e a crítica de um historiador que reprova não citar o papel de Fez como abrigo dos últimos alquimistas, insinuando a relevância histórica local da prática.
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Ciência e arte aparecem como duas faces de uma mesma tradição, de modo que medicina é ciência e arte, alquimia se chama “arte régia” e tasawwuf pode ser chamado arte espiritual, e mesmo artes plásticas tradicionais pressupõem saberes como procedimentos geométricos e proporções traçadas por compasso de corda.
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A destreza no arte tradicional envolve simultaneamente solução técnica e solução estética, e utilidade e beleza são inseparáveis como aspectos de perfeição, segundo o hadîth “Deus prescreve a perfeição a toda coisa” (Inna Llâha kataba-l-ihsâna ‘ala kulli shai), em que ihsân implica virtude, beleza e perfeição.
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Na artesania, a instrução é frequentemente muda, baseada na imitação do gesto do mestre, e o bom artesão se distingue por valores humanos como paciência, disciplina e seriedade, sendo grande a qualidade pedagógica do arte, e entre artesãos de Fez havia conhecedores de fiqh e tasawwuf que viam o ofício como meio de aperfeiçoamento espiritual (ihsân).
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A tradição concilia liberdade criadora e regras por meio de modelos e formas típicas que o artista combina e adapta ao fim da obra, como linguagem com gramática e sintaxe, de modo que a maestria é expressar-se livremente graças às regras, e a justeza pode ser nutrida por inspiração do fundo não individual da tradição.
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As formas típicas da arte islâmica têm raízes no espírito do Islã, como marcas visíveis de uma tradição não inventada pelo homem, assim como a ciência islâmica tem raízes no Corão de que é comentário mais ou menos direto.