A máscara sagrada toma necessariamente suas formas da natureza, mas nunca é naturalista, pois seu propósito é sugerir um tipo cósmico e intemporal, combinando formas de diferente natureza mas análogas entre si, como formas humanas e animais, ou formas puramente geométricas.
O animal é de si uma máscara de Deus: o que se olha por seu rosto não é tanto o indivíduo quanto o gênio da espécie, o tipo cósmico que corresponde a uma função divina; as forças da natureza assumem a forma da máscara no animal, e as forças da natureza são funções divinas.
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As danças com máscaras de formas animais podem ter fim prático, como conciliar o gênio da espécie caçada, numa ação mágica que pode integrar-se numa visão espiritual das coisas.
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Entre os bantus e outros povos africanos, a máscara sagrada por excelência representa o animal totem, considerado ascendente remoto da tribo: não o ascendente natural, mas o tipo intemporal do qual os antepassados remotos receberam sua autoridade espiritual, o que se expressa na forma meio animal, meio geométrica da máscara.
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As máscaras antropomórficas de ascendentes não evocam um indivíduo, mas o tipo ou a função cósmica cuja manifestação humana era o antepassado; em povos onde a filiação espiritual coincide com a descendência ancestral, o antepassado fundador assume necessariamente papel de herói solar, de natureza meio humana, meio divina.
O sol é a máscara divina por excelência, pois é como uma máscara diante da luz divina que cegaria e queimaria os seres terrestres se fosse retirada; o leão é o animal solar e a máscara em forma de cabeça de leão é uma imagem do sol.
O costume de cobrir com máscara o rosto de um morto, presente em diversas civilizações além do antigo Egito, tinha por sentido primeiro representar o protótipo espiritual no qual o morto era considerado integrado.
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A máscara egípcia das múmias antes da decadência não mostrava o defunto tal qual era, mas tal como havia de tornar-se: um rosto humano que se aproximava da forma imutável e luminosa dos astros.
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Segundo a doutrina egípcia, a modalidade sutil inferior do homem, que normalmente se dissolve após a morte, pode ser retida e fixada pela forma sagrada da múmia, que serve como vínculo entre este mundo e a alma do defunto e como ponte por onde os encantamentos e oferendas dos sobreviventes alcançam a alma.
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Essa fixação do hálito dos ossos produz-se espontaneamente à morte de um santo, e é isso que faz de uma relíquia o que ela é: a modalidade psíquica inferior do santo foi transformada durante sua vida e tornou-se veículo de uma presença espiritual que fixará as relíquias e o túmulo.
A estilização típica do rosto humano nas máscaras do Nô, teatro ritual japonês, tem intenção ao mesmo tempo psicológica e espiritual: cada tipo de máscara mostra uma certa tendência da alma, representando os gunas, as tendências cósmicas, na alma.
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Quanto mais latente e imóvel for a expressão de uma máscara, mais viva será na representação: cada gesto do ator a fará falar, cada movimento revelará novo aspecto da máscara, como uma súbita visão de uma profundidade ou abismo da alma.