O problema da alma — criada ou incriada — é uma fonte de falsos problemas, e Mestre Eckhart o aborda da maneira mais metafísica e vedântica possível.
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A teologia cristã, a partir da concepção bíblica do Deus Criador e do conceito de causa, ensina que a alma é criada; essa alma criada é imortal — começa com o corpo, mas nunca morre; se se concebe a eternidade como uma indefinidade temporal, surgem problemas do tipo o que fazia Deus antes da Criação; se se concebe a eternidade como a perfeita simultaneidade do não-tempo, o problema de quando começa a alma perde seu sentido.
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Eckhart afirma: segundo seu modo de natividade eterna, ele foi eternamente, é agora e permanecerá eternamente; o que é como criatura temporal morrerá e se aniquilará, pois está entregue ao tempo; mas na natividade eterna nasceram todas as coisas — ali o homem foi causa de si mesmo e de todas as coisas, e se Deus é Deus, o homem é uma causa disso; esse trecho, não condenado pela Bula de João XXII, mostra que para compreender o mistério da alma é preciso ir além da causa e do Deus criador concebido como Deus-causa.
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Mesmo no plano teológico simples, é impossível sustentar que fomos outrora no nada: estamos, como todas as coisas, eternamente no pensamento divino — o Verbo concebido como Intelecto divino; o efeito está sempre contido eminentemente na causa.
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Adotando-se a perspectiva teísta, é preciso manter que a alma criada não é um pequeno absoluto posto diante do Criador e que lhe escaparia após sua criação; permanece sempre a relação de causa a efeito; no domínio espiritual fala-se de graças e dons como vínculos reais, e os místicos falam da cume extrema da alma como o lugar onde Deus opera.
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Adotando-se a perspectiva metafísica e sustentando que o efeito não é essencialmente diferente da causa, é preciso explicar a descontinuidade no seio da continuidade sem confundir a identidade metafísica ou essencial com a identidade cosmológica ou substancial — que é o panteísmo; essa confusão é frequente entre os ocidentais, ao passo que a metafísica dos Upanishads não pode ser confundida com os devaneios panteístas de certos autores modernos.
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A perspectiva metafísica funda a essência individual de modo mais radical do que qualquer concepção criacionista: é apenas relacionando o ser que se manifesta na condição humana ao Um que é seu Si que parece possível fundar a permanência relativa do aspecto individual desse ser; essa permanência só pode ser relativa, pois toda individuação — inclusive a do Absoluto — sendo uma negação do Infinito, deve ser negada por sua vez para que o Infinito seja realmente infinito.
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A perspectiva criacionista pertence antes à evidência racional, enquanto a perspectiva metafísica sonda o mistério da alma; Çamkara e Râmânuja se opuseram nesse ponto; a teologia clássica da Igreja é criacionista, mas certas escolas espirituais adotaram uma perspectiva mais ampla, não sem riscos; Mestre Eckhart conclui seu sermão sobre a alma afirmando que ele só se dirige àqueles que já o possuem com a vida ou como disposição do coração.