Para a liturgia da Imaculada Conceição, a Igreja propõe como epístola o trecho de Pv 8,22-31 sobre a Sabedoria — presente ao lado de Deus como artífice antes da criação do mundo —, aplicando-o a Maria, Mãe do Verbo, Sabedoria incriada.
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A missa Salve sancta Parens contém também um trecho do Eclesiástico (Eclo 24,14-16) aplicado à Virgem: criada antes dos séculos, ela serviu na Tenda santa, foi firmada em Sião e exerceu seu poder em Jerusalém.
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A Igreja aplica a Maria o que Salomão diz da Sabedoria porque a Virgem é Mãe do Verbo, Sabedoria incriada: assim como o Verbo residia no tabernáculo de Jerusalém, reside em Maria, Mãe do Verbo encarnado.
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Não há contradição em aplicar um mesmo texto — ou um mesmo símbolo, a Sabedoria criadora — a dois sujeitos diferentes (o Verbo e a Virgem), pois o ponto de vista é diferente; assim como um símbolo é suscetível de aplicações a vários graus, também é suscetível, num mesmo grau, de aplicações diversas segundo pontos de vista diferentes.
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A Sabedoria — ou a Virgem — é apresentada como criada antes de todos os séculos e como acompanhando Deus no ato criador; a Sabedoria manifestou-se um dia em Israel: por isso a Virgem escolhida em Israel para dar à luz o Criador é chamada Sede da Sabedoria (Sedes sapientiae) nas litanias.
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A questão de como a Virgem — que é uma criatura — pode ser dita criada de toda a eternidade se responde pela hino das Primeiras Vésperas da Assunção (liturgia romana de 1950): a Virgem é a primeira saída do espírito do Criador, predestinada a trazer em seu seio o Filho do Altíssimo.
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O que se manifesta no tempo nunca esteve no nada — pois o nada não existe —; está contido de toda a eternidade no Intelecto divino como possibilidade de manifestação; o que não se manifesta faz parte das possibilidades de não manifestação, mas tampouco é o nada; toda a realidade de uma criatura decorre de sua permanência eterna no Intelecto divino.