O ponto de partida da análise é o Śatapatha Brāhmaṇa, que define a dupla persona de Mitrāvaruṇau como “Conselho e Poder” (Krátu e Dákṣa), sendo Mitra o Conselho, o Sacerdotium e o Conhecedor (abhigantṛ), e Varuṇa o Poder, o Regnum e o Executor (kartṛ), uma relação em que o Regnum é dependente e infrutífero sem a vivificação do Sacerdotium.
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No início, Sacerdotium e Regnum eram distintos, mas o Regnum não podia subsistir sem o Sacerdotium, e suas obras sem a vivificação de Mitra eram infrutíferas.
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Varuṇa (Regnum) convidou Mitra (Sacerdotium) a unir-se a ele, oferecendo-lhe a precedência (puras tvā karavai) para que, vivificado por ele, pudesse realizar obras frutíferas; essa é a origem do ofício de Purohita.
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Os termos técnicos “Purohita” (o que é posto à frente), “Purodhātṛ” (o rei que o designa) e “Rājasūya” (a vivificação do rei) derivam dessa relação de precedência e vivificação.
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Os Devasvāḥ são as divindades (Savitṛ, Agni, Soma, Bṛhaspati, Indra, Rudra, Mitra, Varuṇa) que, invocadas pelo sacerdote, “vivificam” o rei, tornando-o governante por “Direito Divino”.
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O Rājasūya é um ritual de iniciação e sacrifício, uma “aspersão” (abhiṣeka) que corresponde à coroação, na qual os sacerdotes, como “pais”, dão à luz o rei, que renasce da morte iniciática.
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O “Conselho” (kratu) é equivalente à vontade, autoridade, inspiração e sindérese; é o princípio que autoriza e que corresponde ao “Deus” poético de Filão e à “Misericórdia” islâmica.
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Manas (Mente/Intelecto) é equiparado a kratu (o Conselho) e a Prajāpati, enquanto Vāc (a Voz) é equiparada a dakṣa (o Poder) e é a esposa e filha de Manas.
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Bṛhaspati é o brahma (poder espiritual) e Vāc é o rāṣṭra (poder real); o Sacerdotium é o Diretor (abhigantṛ) e o Regnum é o Fator (kartṛ).
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A função do rei é dar efeito, por meio de seu fiat, aos propósitos da Autoridade Espiritual, agindo como a “Voz” que torna real a vontade do Conselho.
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O rei é um sādhaka cuja arte (a ciência do governo, nītiśāstra) é aprendida com o Purohita; ele deve falar sabiamente e ser governado por sua arte para ser “reto” (sādhu), não “torto” (vṛjina).
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O monarca tradicional governa por Direito Divino, mas não é absoluto; é súdito de outro Rei, a Lei (dharma), que é o verdadeiro princípio da realeza e está acima de tudo.
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O “Rei de Reis” (adhirājo rājñām) é controlado por um Superior, diferentemente do monarca constitucional, que pode ser controlado por iguais ou inferiores.