HINDUÍSMO – INTRODUÇÃO

HINDUÍSMO E BUDISMO

O brahmanismo ou hinduísmo não é apenas a mais antiga de las religiões de mistérios, ou antes das disciplinas metafísicas, das quais se possui um conhecimento pleno e preciso proveniente de fontes literárias e, no que concerne aos últimos dois mil anos, também de documentos iconográficos, mas, talvez, também a única destas que sobreviveu com uma tradição íntegra, e que é vivida e compreendida no presente dia por muitos milhões de homens, dos quais alguns são camponeses e outros homens instruídos bem capazes de explicar sua fé, tanto em línguas europeias como em suas próprias línguas. No entanto, e embora as escrituras e práticas antigas e recentes do hinduísmo tenham sido examinadas por eruditos europeus durante mais de um século, apenas seria um exagero dizer que se poderia dar uma estimativa fiel do hinduísmo na forma de uma negação categórica da maior parte das afirmações que se fizeram a seu respeito, tanto pelos eruditos europeus como pelos eruditos indianos educados em nossos modos modernos de pensamento cético e evolucionista.

Por exemplo, poder-se-ia começar observando que a doutrina védica não é nem panteísta nem politeísta, nem um culto dos poderes da Natureza, exceto no sentido em que Natura naturans est Deus e todos os seus poderes são apenas os nomes dos atos de Deus; que karma não é fatum, exceto no sentido ortodoxo do caráter e do destino que é inerente às próprias coisas criadas, e que, compreendido retamente, determina sua vocação; que maya não é ilusão, mas antes a medida e os meios maternais essenciais à manifestação de um mundo de aparências quantitativo, e neste sentido material, pelo qual nós podemos ser iluminados ou enganados conforme o grau de nossa própria maturidade; que a noção de uma reencarnação, no sentido popular do retorno dos indivíduos falecidos a um renascimento nesta terra, apenas representa uma incompreensão das doutrinas da hereditariedade, da transmigração e da regeneração; e que os seis darshanas de la filosofia sânscrita posterior não são outros tantos sistemas mutuamente exclusivos mas, como seu próprio nome implica, outros tantos pontos de vista que não são mais mutuamente contraditórios que, por exemplo, a botânica e a matemática. Também negar-se-á a existência no hinduísmo de algo único e peculiar a si mesmo, à parte da cor local e das adaptações sociais que devem ser esperadas sob o sol, onde nada pode ser conhecido exceto no modo do conhecedor. A tradição indiana é uma das formas da Philosophia Perennis e, como tal, encarna essas verdades universais das quais nenhum povo ou era pode pretender a exclusiva. Por conseguinte, o hindu aceita de boa vontade que outros façam uso de suas próprias escrituras como provas extrínsecas e prováveis da verdade como eles também a conhecem. Além disso, o hindu argumentaria que um verdadeiro acordo entre culturas diferentes apenas pode ser efetuado sobre estas alturas.

Tentar-se-á expor agora os fundamentos positivamente: no entanto, não como isso se faz usualmente, de acordo com o método histórico, que obscurece a realidade mais do que a ilumina, mas desde um ponto de vista estritamente ortodoxo, tanto no que concerne aos princípios como à sua aplicação; procurar-se-á falar com precisão matemática, mas sem empregar nunca nossas próprias palavras e sem fazer nunca afirmações para as quais não se possa citar uma autoridade por capítulo e versículo; ao trabalhar desta maneira, tornar-se-á nossa técnica caracteristicamente indiana.

Não se pode intentar um exame da literatura religiosa, visto que isto equivaleria a uma história literária da Índia, história literária na qual não se pode dizer onde acaba o que é sagrado e onde começa o que é secular, e na qual inclusive os cantos dos bardos e dos homens de cena são os hinos dos Fiéis de Amor. Nossas fontes literárias começam no Rigveda (1.200 ou mais a.C.) e acabam apenas com os mais recentes tratados teológicos Vaishnavas, Shaivas e Tântricos. No entanto, deve-se mencionar especialmente a Bhagavad Gita, provavelmente como a obra mais importante produzida na Índia; este livro de dezoito capítulos não é, como às vezes se chamou, uma obra sectária, mas uma obra que se estuda universalmente e que frequentemente se repete de memória diariamente por milhões de indianos de todas as persuasões; pode ser descrita como um compêndio de toda a doutrina védica que se encontra nos antigos Vedas, Brahmanas e Upanishads; e devido ao fato de ser a base de todos os desenvolvimentos posteriores, pode ser considerada como o foco de toda a religião indiana. A isto se deve acrescentar que os pseudo-históricos Krishna e Arjuna hão de identificar-se com os míticos Agni e Indra.