ORIGEM E UTILIZAÇÃO DE IMAGENS

Transformação da Natureza em Arte

* Explicar o uso das imagens na India como método edificante não implica que hindus e budistas sejam em geral menos supersticiosos que outros povos.

* A superstição ou o realismo são inseparáveis da natureza humana; a maioria sempre conceberá átomos e elétrons como coisas reais, tangíveis se não fossem tão pequenos, e crê que a tangibilidade é prova de existência.

* Se se considerar a filosofia religiosa indiana em sua totalidade, a civilização hindu deve ser definida como uma das menos supersticiosas que o mundo conheceu.

* O comentador indiano Nilakantha afirma do Krishna Lila, considerado histórico pela maioria dos hindus, que sua narração é sem importância, que não é um evento histórico, mas baseado em verdades eternas, na relação real da alma com Deus, e que os eventos se passam não no mundo exterior, mas no coração do homem.

* É precisamente em um mundo dominado por um conceito idealista da realidade, e com a aprovação dos mais profundos pensadores, que floresce na India o que se gosta de chamar idolatria.

* Shankaracharya desculpa-se, em uma oração célebre, por visualizar durante a contemplação o Uno que não é limitado por nenhuma forma, por rezar em hinos ao Uno que está além do alcance das palavras, e por visitar em altares Aquele que é onipresente.

* O Ishvara hindu não é um Deus ciumento, porque todos os deuses são Seus aspectos imaginados por Seus adoradores.

* A multiplicidade das formas de imagens, coincidindo com o desenvolvimento do hinduísmo monoteísta, surge de causas variadas que remetem todas à diversidade das necessidades dos grupos e dos indivíduos.

* A iconolatria não foi abandonada como prática ignorante reservada a uma espiritualidade infantil; mesmo os maiores visitaram templos e adoraram imagens de modo não cego nem inconsciente.

* As formas das imagens não são arbitrárias; seus elementos últimos podem ser de origem popular antes do que invenção dos sacerdotes, mas o método adota-se e desenvolve-se na esfera da ortodoxia intelectual.

* O problema inteiro do simbolismo, pratika, é discutido por Shankaracharya no comentário sobre os Sutras do Vedanta; o Altíssimo é o tema último de todas as canções, mesmo profanas.

* O processo efetivamente posto em jogo na fabricação das imagens antecede as mais antigas imagens das divindades supremas que sobreviveram, encontrando-se já nos cantos e mitos védicos descrições de deuses com membros, ornamentos, armas ou outros atributos.

* A finalidade da adoração, nos modos grosseiro ou sutil, só se atinge por identificação do ser consciente do adorador com a forma sob a qual a divindade é concebida; nadevo devam yajet, só como anjo se pode contemplar o anjo; devo bhutva devam yajet, para contemplar o anjo, torna-te anjo.

* Quando uma imagem material deve ser produzida para adoração em um templo ou alhures, isso deve ser empreendido como procedimento técnico por um obreiro profissional, designado como shilpin, yogin, sadhaka, rupakara ou pratimakara.

* A produção técnica está assim ligada ao método psicológico conhecido como yoga; o artista não recorre a modelos, mas usa uma construção mental, o que explica suficientemente o caráter intelectual da arte.

* As características próprias das imagens são elucidadas nos Shilpa Shastras por uma série de cânones chamados talamana ou pramana, prescrevendo as proporções ideais próprias às diferentes divindades.

* As imagens diferem grandemente segundo seu grau de antropomorfismo; algumas são simples símbolos, como a árvore da Bodhi representando o Buda no momento da Iluminação, ou apenas os pés do Senhor como objeto de adoração.

* No uso efetivo de uma imagem material, é indispensável que ela seja preparada para a adoração por uma cerimônia de invocação, avahana; se o uso é apenas temporário, deve-se depois desacralizá-la por uma fórmula de destituição, visarjana.

* Só por uma mudança de ponto de vista psicologicamente equivalente a essa destituição formal é que o adorador, que naturalmente olha o ícone como uma ajuda devocional, passa a olhá-lo como simples obra de arte considerável no nível dos sentidos.