O termo samsara é um desses modos de expressão, de forma que a errância para Gautama não é a errância de coisa alguma, pois o Budismo nunca fala de transmigração de almas, mas apenas de transmigração de características, de uma personalidade sem individualidade, sendo que a diferença entre o fim de uma vida e o início de outra é do mesmo gênero que a mudança de um menino que se torna homem.
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O exemplo da chama é o mais adequado: a vida é uma chama e a transmigração é a transmissão da chama de um objeto combustível a outro, sendo a chama a mesma em termos de continuidade, mas a vela não é a mesma.
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O exemplo das bolas de bilhar ilustra que o que renasce não é a bola que se move, mas seu impulso, seu momento, seu kamma, não um movimento criado ex novo.
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A reencarnação budista é uma transmissão sem fim desse impulso através de uma série indefinida de formas, sendo a salvação compreender que as formas são estruturas compostas sujeitas ao deperecimento e que o que se transmite é apenas um impulso determinado pelo que se acumulou no passado.
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A doutrina do kamma, adotada por Gautama a partir da doutrina corrente, declara que as ações são inevitavelmente seguidas por suas consequências e que as causas determinam as características, predeterminando em grande parte o comportamento futuro do indivíduo.
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O kamma não deve ser confundido com uma predestinação mecânica, pois não elimina a responsabilidade nem torna vão o esforço, afirmando apenas que a ordem da natureza não pode ser mudada por milagres.
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Os esforços presentes, repetidos e bem direcionados, provocarão no tempo a existência de outro tipo de condição, e essa constatação também é chamada kamma.
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Nada é mais essencial na disciplina budista do que o esforço correto.
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A união da doutrina do kamma com a do samsara representa a verdade de que a história do indivíduo não começa com seu nascimento, sendo essa herança concebível de dois modos: o primeiro, inegável, destaca a ação das vidas passadas sobre as presentes; o segundo, que pode ser verdadeiro ou não, mostra a ação de uma única série contínua de vidas passadas sobre uma única vida presente.
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A teoria budista do kamma unida à do samsara não se afasta do protótipo brahmânico ao adotar o segundo ponto de vista.
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Esse ponto de vista oferece a vantagem prática de explicar a aparente injustiça natural, respondendo sem hesitação que o cego de nascença pecou em vida anterior, e não seus pais.
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O Budismo não explica como a continuidade de causa e efeito é mantida entre uma vida A e a consequente vida B separadas pela morte física, enquanto as escolas brahmânicas suprem essa dificuldade introduzindo o corpo astral ou sutil, linga-sarira, uma matéria composta e não o Atman, que serve de veículo do mental e das características e não se desintegra com a morte do corpo físico.
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O que transmigra e transporta o kamma de uma vida a outra é a alma ou corpo sutil, que o
Vedanta, em perfeito acordo com Gautama, define como não-Atman.
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Esse corpo sutil constitui o fundamento de um novo corpo físico, que molda à sua imagem, realizando uma materialização espiritual mantida durante a vida.
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Esse ponto de vista, embora não mencionado pelos budistas, não se opõe à teoria budista, pois a sobrevivência da personalidade após a morte não prova que ela constitua uma unidade eterna nem que algo sobreviva ao alcance do Nibbana.
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O Budismo, em particular nos Jataka, dá por certa a sobrevivência da personalidade até o momento de alcançar o Nibbana, o que torna compreensível a violenta oposição budista ao suicídio, apoiada no argumento sólido de que é preciso algo muito mais poderoso do que uma dose de veneno para destruir a ilusão do eu e do meu, sendo necessário o esforço incansável de uma vontade resoluta.