Este é o esquema.
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O Buda repetidamente faz o seu interlocutor reconhecer que as bases da personalidade comum — materialidade, sentimento, percepção, as formações, consciência — são mutáveis, impermanentes e não substanciais.
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Depois do que, a pergunta é feita: Pode o que é impermanente, mutável e não substancial ser considerado assim: isto é meu, isto sou eu, isto é o meu eu?
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A resposta é sempre a mesma — como se fosse perfeitamente natural e óbvia — Certamente que não, Senhor.
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A conclusão é então mais ou menos deste tipo: “Toda a materialidade, todo o sentimento, toda a percepção, todas as formações, toda a consciência, passada, presente ou futura, interna ou externa, grosseira ou sutil, baixa ou alta, longe ou perto, tudo deve ser considerado, em conformidade com a realidade e com a perfeita sabedoria, assim: 'Isto não é meu, isto não sou eu, isto não é o meu eu.' Considerando assim, o sábio, nobre discípulo não se identifica com a materialidade, não se identifica com o sentimento, não se identifica com a percepção, não se identifica com as formações, não se identifica com a consciência. Não se identificando, ele está desapegado. Estando desapegado, ele está liberto”.
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O mesmo tema tem várias variações no cânone, mas o sentido e o esquema são sempre os mesmos.
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É bastante claro: que toda a força probatória da razão é uma função desta premissa implícita: que por “eu” só podemos entender o incondicionado, ou seja, algo que não tem absolutamente nada a ver com a consciência samsarica ou com as suas formações.
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Só então os textos se tornam claros e lógicos.
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Só então se pode ver, por exemplo, como é que o que é impermanente deve sempre aparecer também como doloroso, e como esta última correlação é estabelecida: “Aquilo que é doloroso é vazio de 'eu'; aquilo que é vazio de 'eu', eu não sou, não é meu, não é o meu eu — assim é apreendido, em conformidade com a realidade e com a perfeita sabedoria”.
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Só assim podemos entender a passagem da averiguação para uma reação e um imperativo: reconhecendo a impermanência dos elementos, dos grupos de desejo, dos sentidos, convencendo-se de que eles não são “eu”, convencendo-se de que “estão em chamas”, o “sábio discípulo Ariano” sente desgosto; desgostado, ele torna-se desapegado; estando desapegado, ele é liberto: ele já teve o suficiente da forma, da consciência finita, dos sentimentos, dos outros khandha, dos objetos, dos contactos, dos estados emotivos que deles procedem, quer sejam agradáveis, dolorosos ou neutros; ele torna-se indiferente perante eles e procura o seu término.
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Eis um ditado: O que é impermanente, o que é anatta, o que é composto e condicionado, isto não te pertence, não deves desejá-lo, deves pô-lo de lado — “o pô-lo de lado será grandemente para o teu benefício, conduzirá ao teu bem-estar”: não pode haver alegria nele nem desejo por ele.
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É claro que tudo isto não será evidência suficiente para todos.
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O pré-requisito tácito mas indispensável é uma consciência superior.
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Quando esta amanhece, então de uma maneira inteiramente natural, não por uma renúncia dolorosa ou “mortificação”, mas quase acompanhada por um porte olímpico do espírito, ocorre viveka, desapego.
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Realizando esta consciência superior, diz-se que aquele que tenta encontrar um “eu” ou algo semelhante ao “eu” (attena va attaniyena) na esfera dos sentidos é como um homem que, procurando madeira de cerne, se aproxima de uma grande árvore e a corta mas que, embora não levando o tronco ou a madeira nova ou os ramos, leva apenas a casca onde não há cerne e certamente nada da madeira dura que ele está a procurar.
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O “eu”, então, é como esta substância essencial primordial dura, e este “eu” é o ponto fundamental de referência para o Budismo.