Antes de discutir os instrumentos da ascese, devem-se fazer algumas observações gerais sobre as condições preliminares exigidas ao indivíduo, para além do que já foi dito sobre a determinação das vocações.
-
O primeiro ponto é que, para aspirar ao despertar, deve-se ser um ser humano.
-
A possibilidade de alcançar a liberação absoluta é oferecida primariamente, de acordo com o Budismo, apenas àquele que nasce homem.
-
Não apenas aqueles que estão em condições de existência inferiores à humana, mas também aqueles que estão em condições superiores, tais como os deva, os seres celestes ou “angélicos”, não têm esta oportunidade.
-
Enquanto, por um lado, a condição humana é considerada como um estado de contingência e enfermidade fundamentais, por outro é pensada como um estado privilegiado, obtível apenas com grande dificuldade — “é uma coisa difícil nascer homem”.
-
O destino supramundano dos seres é decidido na terra: a teoria do bodhisatta considera mesmo a possibilidade de “descidas” à terra de seres que já alcançaram estados de consciência muito elevados, “divinos”, para completar a obra.
-
Como se verá, a liberação pode ocorrer também em estados póstumos: mas mesmo nestes casos é pensada como a consequência ou desenvolvimento de uma realização ou de um “conhecimento” já alcançado na terra.
-
O privilégio do homem, conforme concebido pelo Budismo nestes termos, pareceria estar conectado com uma liberdade fundamental.
-
Deste ponto de vista, o homem é potencialmente um atideva, é de uma natureza superior aos “deuses”, pela mesma razão que se encontra na tradição hermética; isto é, uma vez que contém em si mesmo, não apenas a natureza divina à qual os anjos e deuses estão ligados, mas também a natureza mortal, não apenas a existência mas também a não existência: donde tem a oportunidade de chegar ao cume supra-teísta que discutimos, e que é de fato a “grande liberação”.