Os demônios, os lares, o si individualizante não apenas se identificam com as Fúrias, Erínias e naturezas dionisíacas desencadeadas, que oferecem traços comuns com as deusas da morte, mas assumem também uma significação idêntica à das virgens que lideram o assalto nas batalhas, às Valquírias e aos fravashi.
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Os fravashi são apresentados nos textos como as aterradoras, as todopoderosas, as que escutam e concedem a vitória a quem as invoca, ou mais exatamente, a quem as evoca em si mesmo.
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Nas tradições arianas essas entidades guerreiras assumem os traços das deusas da vitória, metamorfose que caracteriza o feliz cumprimento das experiências interiores.
A deusa da Vitória exprime o triunfo do Si sobre a potência do demônio, marca de uma tensão vitoriosa rumo a uma condição situada além do perigo inerente ao êxtase e às formas de destruição subpessoais.
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Assim como o demônio ou o duplo significam uma potência profunda e supra-individual em estado latente em relação à consciência ordinária, as Fúrias e Erínias são o reflexo de uma manifestação particular de desencadeamento e irrupção demoníaca, e a deusa da Vitória é a expressão do triunfo do Si sobre essa potência.
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A atração de um estado espiritual realmente suprapessoal, que torna livre, imortal e interiormente indestrutível, o tornar-se um dos dois elementos da essência humana, se exprime por essa representação da consciência mítica.
A concepção mística da vitória é fundamentalmente a de uma correspondência eficaz entre físico e metafísico, visível e invisível, onde as ações do espírito manifestam traços supra-individuais e se exprimem por meio de operações e fatos reais.
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Os aspectos materiais da vitória militar tornam-se então a expressão de uma ação espiritual que a provocou, no ponto em que exterior e interior se encontram; a vitória aparece como o sinal tangível de uma consagração de renascimento místico realizada nesse ponto preciso.
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O general aclamado no campo de batalha testemunhava a experiência e a presença de uma força mística que o transformava; daí o caráter ultraterrestre ligado à glória e à divindade do vencedor, e o fato de a antiga celebração romana do triunfo ter podido assumir um caráter muito mais sagrado que militar.
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Luz, esplendor solar, glória, vitória e divindade real são imagens que, no mundo ariano, estão em estreita conexão, não como abstrações ou invenções do homem, mas como forças e poderes reais.
A tradição arano-iraniana já conhecia o fogo celeste entendido como glória, o hvareno, que desce sobre os reis e os condottieri, os torna imortais e os testemunha pela vitória; a antiga coroa real radiante simbolizava a glória como fogo solar e celeste.
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A teologia mística ensina que na glória se realiza a transfiguração espiritual santificante, e a iconografia cristã nimba a cabeça dos santos e mártires com a auréola da glória: é o traço da herança, ainda que enfraquecida, das mais altas tradições heroicas arianas.
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A doutrina mística do combate e da vitória representa o cume luminoso da concepção comum da ação no sentido tradicional.
As tensões materiais e espirituais se comprimiram de tal modo no Ocidente que não podem mais se resolver senão pelo combate; com a guerra atual, uma época caminha para seu próprio fim, e forças que não podem mais ser dominadas e transformadas na dinâmica de uma nova civilização de ideias abstratas começam a irromper.
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Uma ação muito mais profunda e essencial se impõe, pois além das ruínas de um mundo transtornado e condenado começa para a Europa uma nova era.
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Nessa perspectiva, tudo dependerá da forma que o indivíduo poderá dar à experiência do combate; se será capaz de assumir heroísmo e sacrifício como uma purificação, catharsis, como um meio de libertação e despertar interior.
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É no combate mesmo que convém despertar e temperar essa força que, além das tempestades do sangue e das misérias, favorecerá, com novo esplendor e paz poderosa, uma nova criação.
O lema dos tempos que se foram ainda ressoa: a vida como um arco; a alma como uma flecha; o espírito absoluto como alvo a atingir.
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Quem, ainda hoje, vive o combate nesse reconhecimento, permanecerá de pé onde os outros cairão e será uma força invencível; esse homem novo vencerá em si todo drama, toda obscuridade, todo caos.
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Segundo a tradição ariana primordial, o heroísmo dos melhores pode assumir uma função evocadora, suscetível de restabelecer o contato, perdido há séculos, entre este mundo e o do além.
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O combate não será mais um horroroso massacre, mas a prova do direito e da missão de um povo; a paz não significará mais um novo afundamento na grisalha burguesa cotidiana, mas será o cumprimento da tensão operante na batalha.
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A profissão de fé dos antigos: o sangue dos heróis é mais sagrado que a tinta dos eruditos e que a prece dos devotos, está ainda na base da concepção tradicional segundo a qual, na guerra santa, muito mais do que os indivíduos, agem as forças místicas primordiais da raça que criam impérios mundiais e dão ao homem a paz vitoriosa.