Um carácter análogo marca também, em certo aspecto, as divindades femininas de tipo amazônico, cuja castidade ou virgindade em sentido corrente costuma ser somente um traço tardio que se acrescentou a figuras mais arcaicas, devido a um processo de moralização.
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Sabe-se, por exemplo, que Artemis-Dianae Atena, essencialmente consideradas virgens no mundo grego, tinham sido, como divindades pré-helénicas e pelásgicas, deusas mães do tipo de que temos falado mais acima.
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O fato de que neste contexto as deusas virgens e a própria Ishtar, virgem e prostituta ao mesmo tempo, tenham podido apresentar-se também como divindades da guerra e da vitória (a Venus Victrix, Ishtar invocada como “Senhora das Armas”, “Árbitra das Batalhas”; a presença dos dois temas é típica na seguinte invocação, dirigida a esta deusa: “És forte, ó Senhora da Vitória, tu que podes suscitar os meus desejos violentos”) tem sido bem interpretado por Przyluski, que faz notar que a Grande Deusa é também a divindade dos combates porque à guerra, neste caso, considera-se essencialmente no seu aspecto de ação que destrói e que mata.
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Por igual razão adota Afrodite, enquanto Areia, os traços de uma divindade guerreira e toma o sentido esotérico de “potência”, de shakti, próprio de Ares-Marte.
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Assim põe-se bem em relevo a ambiguidade de um poder que é ao próprio tempo poder de vida e poder de morte.
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De Astarté disse-se, precisamente: Diva Astarte, hominorum deorum vita, salus, rursus eadem quae est pernicies, mors, interitus.
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É a deusa lunar luminosa, mas cuja outra cara é a deusa “negra”, abismal, a Mater Tenebrarum, a Hécate subterrânea (Artemis virgem também adota às vezes o aspecto de Hécate), a Juno infernal, a Domina Ditis (Virgílio), Ishtar e Kali, “Mãe terrível”.
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Outros tantos arquétipos nos quais converge igualmente o simbolismo de figuras derivadas, como as virgens das batalhas e das tormentas, as valquírias nórdicas, as fravashi iranianas.
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Os homens tratam então de utilizar e lançar a deusa, poder desencadeado de vida e morte, contra os seus inimigos.
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De modo que a deusa adota também os traços de uma deusa da guerra, da Promakhos do leão, que leva venábulo e arco.
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E quando esse poder conduz à vitória, a Virgem aparece finalmente como deusa do triunfo.
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Por isso Durgâ é igualmente a virgem negra — krishna kumari — invocada como aquela que concede a vitória na batalha.
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No que concerne ao aspecto “infernal” deste conjunto, será interessante dizer umas palavras sobre a devotio romana, rito tenebroso pelo qual um chefe de guerra se oferecia como vítima voluntária às forças infernais para desatá-las contra o inimigo: na invocação, após as divindades luminosas, incluído Marte, vem o nome de Belona, que precisamente é uma deusa da guerra no sentido antes indicado, mas que alguns autores antigos identificavam também com as demais formas da Grande Deusa.
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Há que citar além disso a deusa egípcia Sekhmet, de cabeça de leoa, deusa desnuda da guerra que gozava dos sacrifícios sangrentos e de quem se dizia que se unia viva com os vencedores.