Encontramos na tradição hindu algumas precisões dignas de assinalar-se sobre o simbolismo de que falamos.
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O sistema Samkhya apresenta-nos o tema fundamental da dualidade de purusha, o masculino primigenio, e prakriti, princípio da “natureza”, substância ou energia primigenia de todo devir e de todo movimento.
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Purusha, como o nous helênico, é desprendido, impassível, “olímpico”, feito de pura luz; inativo no mesmo sentido que o motor imóvel aristotélico.
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Com uma espécie de ação de presença — com o seu “reflexo” —, fecunda a prakriti, rompe o equilíbrio das potências (guna) desta, originando assim o mundo manifestado.
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Esta concepção conheceu os seus desenvolvimentos mais interessantes no tantrismo metafísico e especulativo.
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O culto hindu conhecia a figura de Shiva como deus andrógino denominado Ardhanarishvara.
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Os Tantras separam os dois aspectos da divindade, o masculino e o feminino.
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Ao purusha do Samkhya corresponde aqui precisamente Shiva, à prakriti ou “natureza” corresponde Shakti, entendida como esposa e potência de Shiva — o termo sânscrito shakti compreende o sentido tanto de esposa como de potência —.
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O mundo nasce da sua união, do seu ato sexual; nos textos, a fórmula empregada é precisamente: Çiva-Çakti samayogât jâyate srishtikalpanâ.
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Como no Samkhya, também aqui se atribui ao elemento masculino, a Shiva, uma iniciativa “não atuante”; provoca o movimento, desperta a Shakti; mas verdadeiramente ativa, móvel e geradora só o é esta última.
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Isso está indicado particularmente pelo simbolismo de uma união sexual na qual é a fêmea, a Shakti ígnea, a que desempenha o papel ativo e se move, abraçando ao macho divino feito de luz e portador do cetro, que permanece imóvel.
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Trata-se do que se denomina a viparita-maithuna, o ato sexual invertido, que se encontra muito frequentemente na iconografia sagrada indo-tibetana, especialmente nas estatuetas denominadas Yab yum chudpa.
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No âmbito das personificações divinas, a Shakti corresponde, entre outras, Kali, a “deusa negra”, muitas vezes ígnea também ou bem rodeada de um círculo de chamas, de modo que reúne em si dois atributos do arquétipo feminino de que já temos falado: a obscuridade preformal e o fogo.
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No seu aspecto de Kali, no entanto, a Shakti apresenta-se essencialmente como energia irredutível a toda forma finita ou limite, e por conseguinte também como deusa destruidora.
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Pelo demais, assim como os chineses veem exprimir-se na realidade o variado jogo da união do yin e do yang, assim a tradição hindu de que falamos vê na criação uma combinação de energias que procedem dos dois princípios, da chit-shakti ou shiva-shakti e da maya-shakti.
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Assim, um texto põe em boca da deusa estas palavras: “Como no Universo tudo é Shiva e Shakti ao mesmo tempo, ó tu, Maheshvara [o deus masculino], tu estás em todo lugar e eu estou em todo lugar. Tu estás em tudo e eu estou em tudo”.
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Mais precisamente, Shiva está presente no aspecto imutável, consciente, espiritual e estável, e Shakti, no aspecto cambiante, inconsciente e vital, natural e dinâmico de tudo o que existe.
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A deusa existe em forma de tempo, e nesta forma é a causa de toda mudança e é “onipotente no momento da dissolução do universo”.