O impulso obscuro para o ser absoluto se transmite, degradando-se e desviando-se, ao que se dissimula sob o acasalamento animal e a procriação, tomando a forma de uma procura de sucedâneo para a necessidade de confirmação metafísica do Eu, e a fenomenologia do Eros segue essa queda.
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O Eros, que era um estado de embriaguez, transforma-se cada vez mais em desejo extrovertido, sede e cobiça física, animaliza-se e torna-se puro instinto sexual, experimentando uma síncope no espasmo e no abatimento que se segue à voluptuosidade física.
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O instinto genésico, inexistente como fato da consciência erótica, torna-se real como “Id” (para usar o termo da psicanálise), obscura gravitação e coação vital que escapa à consciência, não porque a “vontade da espécie” seja um fato, mas porque a vontade do indivíduo de superar seu fim nunca pode ser extirpada ou recalcada, sobrevivendo nessa forma obscura e demoníaca que fornece a dynamis, o impulso primordial no ciclo eterno da geração.
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Michelstaedter é evocado a propósito da liquida voluptas como fenômeno de dissolução.
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O processo explicativo habitual deve ser invertido: o inferior se deduz do superior, e o instinto físico procede de um instinto metafísico, sendo a tendência primordial a do ser, cujos impulsos biológicos de autoconservação e reprodução são “precipitados” e materializações que criam no próprio plano os seus determinismos físicos.
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Esgotada a fenomenologia humana, que parte da embriaguez hiper-física e encontra seu limite inferior no orgasmo da função genésica, passa-se às formas de sexualidade dos animais como especializações degenerativas de possibilidades latentes no ser humano.
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Rémy de Gourmont descreveu essas formas na “Física do Amor”, mas esse mundo de correspondências ilumina-se agora de uma luz diversa: não se revelam aqui antecedentes evolutivos do eros humano, mas formas liminares de sua involução e desintegração como impulsos automatizados, demonizados, lançados no ilimitado e no insensato.
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No eros animal, onde se falaria da coação absoluta da “vontade da espécie”, a raiz metafísica se torna por vezes mais visível do que em muitas formas flácidas e “espirituais” do amor humano.
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No plano da vida de relação, o homem precisa do amor e da mulher para escapar à angústia existencial e inventar um sentido à sua existência, procurando inconscientemente sucedâneos e alimentando ilusões.
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Jack London é evocado a propósito da “atmosfera sutil emitida pelo sexo feminino”, cuja ausência cria um vazio crescente e uma angústia indefinível.
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Esse sentimento serve de fundo à sociologia do sexo como fator da vida associada: do matrimônio ao desejo de ter filhos e descendência, manifestando-se tanto mais vivo quanto mais se degrada o plano mágico do sexo.
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Esse domínio, em que o homem domesticado modernamente encerra habitualmente o sexo, pode denominar-se o dos subprodutos de segundo grau da metafísica do sexo, substituindo-se com ele um mundo de “retórica” pelo mundo da “persuasão” e da verdade no sentido de Michelstaedter.
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Ainda mais à margem encontra-se a pesquisa abstrata e viciosa do prazer venéreo como estupefaciente e lenitivo liminal da falta de sentido de uma existência acabada.