Nestas lendas, por mais livres que sejam de tons religiosos, encontramos novamente a conexão do Graal, concebido como uma pedra celestial, com um misterioso legado e poder associado a um estado primordial que foi de alguma forma preservado durante um período de exílio. A referência a Lúcifer, para além de um contexto cristão e teísta, pode ser vista como uma variação sobre o tema de uma tentativa abortada ou desviada de uma reaquisição heroica deste estado. O tema da hoste de anjos descendo do céu com o Graal se assemelha ao tema da raça dos Tuatha de Danaan, que se acreditava ser composta de seres divinos. Esta raça veio para a Irlanda do céu, carregando uma pedra sobrenatural (a pedra dos reis legítimos) e outros objetos que, como notamos, correspondem exatamente aos do ciclo do Graal: uma espada, uma lança, uma tigela que alimenta as pessoas sem nunca ser esgotada. Ao mesmo tempo, a pátria dos Tuatha era aquela Avalon que, de acordo com uma notável tradição, é também a sede dos livros do Graal e que muitas vezes foi confundida, devido a associações obscuras, com o lugar em que o Graal foi eminentemente revelado.
Há mais. Em algumas lendas celtas, os anjos caídos são identificados com os Tuatha de Danaan; em outras lendas, se faz menção a espíritos que, como um castigo por sua neutralidade, foram forçados a descer na terra. Eles são descritos como os habitantes de uma região ocidental-atlântica, que foi visitada por São Brandão. Esta região é um fac-símile de Avalon, assim como a jornada é uma imagem cristianizada da jornada empreendida por vários heróis celtas para alcançar a “Ilha,” a pátria original e centro inviolável dos Tuatha. Assim, temos uma curiosa interferência de motivos que encontra uma expressão, por exemplo, no Leabhar na h-uidhre, na qual é escrito que os Tuatha são “deuses que geraram homens sábios. É provável que eles chegaram à Irlanda do céu, o que explica a superioridade de sua ciência e de seu conhecimento.”
Uma separação cuidadosa de temas pode aqui diferenciar aquilo que se refere a elementos autenticamente luciferianos (aos quais podemos corretamente aplicar a ideia de uma “queda” e de vida na terra como um castigo) daquilo que (através de uma representação tendenciosamente deformada) se refere a custódios terrenos do poder de cima e da tradição simbolizada pelo Graal como uma presença persistente, inalterada, secreta daquilo que era próprio do estado primordial e divino. A neutralidade dos anjos do Graal (mencionada em Wolfram) é reminiscente de um estado idealmente anterior àquela diferenciação de espiritualidade que o tema luciferiano caracteriza. E se Wolfram mais tarde apresenta uma versão diferente, fazendo Trevrizent dizer que os anjos neutros não retornaram ao céu (ao contrário dos Tuatha, que retornaram a Avalon) mas foram responsáveis por sua eterna queda e que “aqueles que querem ser recompensados por Deus não devem se tornar um inimigo destes anjos caídos;” devemos nos lembrar de como o cristianismo deformou tradições anteriores, substituindo seu significado original por interpretações totalmente diferentes.
Em termos gerais, devido à sua visão prevalentemente “lunar” do sagrado, o cristianismo muitas vezes estigmatizou como luciferiano e diabólico não só aquilo que é verdadeiramente tal, mas também qualquer tentativa de reintegração heroica e qualquer espiritualidade que não fomente uma relação de devoção e de dependência de criatura em relação ao divino, concebido teisticamente. Assim, muitas vezes nos deparamos com misturas de motivos análogas à dos Tuatha de Danaan em certas literaturas sírio-hebraicas, nas quais os anjos caídos eventualmente se tornam um e o mesmo com “aqueles que estão acordados” (os eyripirypoy). Tertuliano não hesitou em atribuir aos anjos caídos o corpo de doutrinas mágico-herméticas, a saber, aquelas doutrinas que ajudaram Flegetanis a penetrar os textos originais do Graal e que Le Morte D'Arthur atribuiu a Salomão, concebido como um antepassado dos heróis do Graal, nos mesmos termos de Tertuliano: “Este Salomão era sábio e conhecia todas as virtudes das pedras e árvores, e assim ele conhecia o curso das estrelas e muitas outras coisas diversas.” Quando Inocêncio III acusou os Cavaleiros Templários de “seguirem doutrinas de demônios” (utentes doctrinis daemonorum), ele sem dúvida tinha em mente os mistérios anti-cristolátricos dos Cavaleiros Templários; este papa instintivamente procedeu à mesma assimilação, através da qual a “raça divina” primordial foi representada como a raça culpada ou luciferiana dos anjos caídos.
Acredito já ter fornecido pontos de referência suficientemente precisos para ajudar os leitores a se orientarem diante de distorções semelhantes e estabelecer tanto o limite que separa o espírito luciferiano daquele que não o é quanto a perspectiva cristã do ponto de vista de uma espiritualidade superior. Assim, será fácil distinguir os elementos individuais que encontramos no ciclo do Graal, que foram misturados com muitas interpolações e deformações. Tendo mostrado que o elemento titânico é de fato a matéria-prima da qual o herói é feito, é compreensível que Wolfram conceda a Percival alguns traços luciferianos, embora o faça completar com sucesso sua aventura, tanto que no final Percival assume a forma luminosa de um restaurador e de um rei do Graal. De fato, Percival acusa Deus de tê-lo traído, de não ser fiel a ele e de ter falhado em assisti-lo na conquista do Graal. Ele se rebela e em sua raiva ele diz:
Eu costumava servir a um ser chamado Deus antes de ser ridicularizado e coberto de vergonha…. Eu era Seu humilde servo porque acreditava que Ele me concederia Seu favor: mas de agora em diante eu me recusarei a servi-Lo. Se Ele me perseguir com Seu ódio, eu me resignarei a isso também. Amigo [ele diz a Gawain], quando chegar a hora de você lutar, que o pensamento de uma mulher [em vez de Deus] o proteja.
Animado por tal indignação e orgulho, Percival, depois de falhar em sua primeira visita ao castelo, cumpre suas aventuras. E assim, sendo separado de Deus, evitando igrejas e realizando “selvagens” feitos de cavalaria (wilden Aventure; wilden, ferren Ritterschaft) ele eventualmente triunfa, alcançando a glória do rei do Graal. Trevrizent lhe dirá: “Raramente foi visto um milagre maior: ao mostrar sua raiva você recebeu de Deus o que mais desejava.” Também em Wolfram, Percival aparece como aquele que alcança o castelo do Graal de uma forma excepcional, sem ter sido designado ou chamado como outros antes dele. Sua eleição ocorre mais tarde; de certa forma, são as próprias aventuras de Percival que provocam sua eleição e quase a conferem a ele. Trevrizent diz: “Nunca antes aconteceu que o Graal pudesse ser alcançado por lutar:” Este traço também nos ajuda a reconhecer o tipo heroico, aquele que, não por natureza (como no caso do tipo Olímpico, a quem o legítimo rei do Graal pode corresponder, antes de ele envelhecer, ser ferido ou adormecer), mas por causa do reavivamento de uma vocação mais profunda e graças à sua ação, participa com sucesso no que o Graal simboliza. Este personagem alcança tais alturas a ponto de se tornar um cavaleiro do Graal e finalmente alcançar a dignidade suprema da Ordem do Graal.