VIRTUDES DO GRAAL

MISTÉRIO DO GRAAL

As virtudes principais do Graal podem ser resumidas como segue:

A natureza perigosa do Graal, em segundo lugar, nos é revelada em relação com o tema do “posto perigoso” e com a prova que este constitui para quem quer assumir a parte do “herói esperado” e a função de chefe supremo da cavalaria da Távola Redonda. Trata-se do “posto vazio” ou “décimo terceiro posto” ou “posto polar”, do qual já falamos; posto, sob o qual se abre o abismo, ou que é fulminado, quando nele se senta um indigno e um não-eleito. Assim, Moses, quando vai ocupá-lo, é agarrado por sete mãos de fogo e destruído “como a labareda destrói um pedaço de madeira” — em seguida, o texto apresenta a coisa nestes termos: metade do fogo que arde Moses se apagou, mas a outra metade não se apagará até que venha Galaad, para levar a cabo a aventura do Graal. Uma variante é “a prova do vaso”: usufruem da êxtase do Graal aqueles que, na mesa de José de Arimateia (a qual se confunde com a da Távola Redonda, ou seja, é dada como o antecedente desta última), não são manchados por culpas; nesta ocasião, Moses, tendo-se sentado no posto perigoso, é engolido por um abismo que se abriu debaixo dele — segundo a explicação cristianizada, por causa de sua falta de fé, porque era um falso discípulo.

Por outro lado, se encontra também o motivo de que só quem tiver se sentado no assento de ouro construído por uma mulher sobrenatural poderá cumprir a busca do Graal. Seis cavaleiros que tentaram sentar-se nele são engolidos por uma súbita voragem, Parsifal se senta nele também, ressoa um terrível trovão, a terra se rasga, mas ele permanece tranquilo em seu posto. Impassível, em sua calma dignidade, na pureza de sua força, nada pode contra ele. Em Robert de Boron, depois disso, ao audaz que sustentou tal prova e assim também a todos os cavaleiros da Távola Redonda se impõe uma série adicional de aventuras, que constituem o caminho para a conquista definitiva do Graal. A Queste du Graal e a Morte Darthur apresentam o tema em uma forma ainda mais direta: o posto perigoso é felizmente ocupado apenas por aquele que superou a “prova da espada”, que soube tirar uma espada de uma pedra, demonstrando com isso ser o melhor entre todos os cavaleiros. Ao ter sucesso em tal prova, da qual já explicamos o significado, o Graal se manifesta na corte do rei Arthur, resplandece uma luz mais que de sol, o Graal aparece magicamente emanando seu aroma e dando a cada cavaleiro o alimento que lhe é adequado.

Este aspecto perigoso do Graal deve ser considerado como o caso-limite do que o Graal pode justamente operar dependendo da vária natureza daqueles que entram em contato com ele. A força do Graal destrói todos aqueles que buscam impugná-la sem ter a qualificação adequada, que tentam de qualquer forma usurpá-la repetindo o gesto titânico, luciférico ou prometeico. Uma expressão, bastante significativa se encontra, a tal respeito, em Wolfram, quando ele diz figurativamente que para os culpados o Graal se torna tão pesado, que eles nem mesmo todos juntos poderiam sustentá-lo. É o excesso mesmo que a potência transcendente constitui para um ser condicionado e ligado à sua limitação, o que faz agir como força destruidora uma força de “vida” (cf. o fogo que consome Moses). Uma variante de tal significado se encontra na Morte Darthur na seguinte forma: ao perceber “uma grande claridade, como se todas as tochas do mundo estivessem reunidas naquela sala”, devida ao Graal, Lancelot se adianta. Uma voz o adverte para não entrar, aliás, para fugir, caso contrário terá de se arrepender. Ele não obedece e entra, um fogo o atinge no rosto, ele cai ao chão e não pode mais se levantar, tendo perdido todo poder sobre seus membros. Aos companheiros, que o acreditam morto, um velho diz: “Em nome de Deus, ele não está morto, mas mais cheio de vida do que o mais potente de todos vocês”. Lancelot permanece neste estado de morte aparente por vinte e quatro dias e as primeiras palavras que depois diz são: “Por que me acordaram? Eu estava muito melhor do que agora”. Esta experiência é referida a ter visto o Sangreal como ninguém pode melhor vê-lo — evidentemente, trata-se de um estado iniciático, de um estado, no qual a participação na potência do Graal é tornada possível por uma suspensão da consciência de vigília e da limitação individual a ela relativa: coisa que evita o efeito negativo, destrutivo e avassalador que a experiência do “contato” tem em quem não sabe passar a formas superiores de consciência, a outros estados do ser.

A duplicidade da virtude do Graal está em certa medida em relação com o significado que, em universal, nas tradições concordantes dos vários povos, e também fora de toda relação com o simbolismo cristão, tem o par taça-lança, a taça correspondendo sobretudo ao aspecto feminino, vivificante e iluminador, e a lança ao aspecto viril, ígneo ou regal (cetro) de um mesmo princípio: se se quer, a primeira à árvore “lunar” e a outra à árvore “solar”, da qual já se disse, a primeira ao aspecto “Sabedoria santa” e a outra ao aspecto “fogo” e “denominação” do mesmo princípio. Mas no mesmo contexto se poderia inserir também a ambivalência da mesma lança, retomada da tradição irlandesa, que por um lado inflige as coup douloureux provocando uma destruição; por outro, a virtude de curar.