EVOLA, J. A tradição hermética: nos seus símbolos, na sua doutrina e na sua arte régia. Lisboa: Ediçoes 70, 1979.
No presente trabalho se usará a expressão “tradição hermética” em um sentido especial que a Idade Média e o Renascimento lhe deram. Não se referirá ao antigo culto greco-egípcio de Hermes, nem se referirá unicamente aos ensinamentos que compreendem os textos alexandrinos do Corpus Hermeticum. No sentido particular em que se usará, o hermetismo está diretamente ligado à tradição alquímica, e é a tradição hermético-alquímica que será o objeto do nosso estudo. Tentar-se-á determinar nela o sentido real e o espírito de uma doutrina secreta, uma sabedoria prática e viável que foi fielmente transmitida dos gregos, através dos árabes, até certos textos e autores no próprio limiar dos tempos modernos.
Desde o início, deve-se chamar a atenção para o erro daqueles historiadores da ciência que querem reduzir a alquimia a mera química em um estágio infantil e mitológico. Contra esta noção são levantadas as exortações explícitas dos autores herméticos mais citados para não nos enganarmos ao tomá-los literalmente, porque as suas palavras são tiradas de uma linguagem secreta expressa por meio de símbolos e alegorias. Estes mesmos autores repetiram, até a exaustão, que o “objeto da nossa preciosa arte está oculto”; que as operações a que se alude não são feitas manualmente; que os seus “elementos” são invisíveis e não aqueles que o vulgo reconhece. Os mesmos autores referem-se desdenhosamente aos “bufadores” e “carvoeiros” que “arruinaram a ciência” e cujas manipulações podiam esperar “nada mais que fumo”, e a todos aqueles alquimistas ingênuos que, na sua incompreensão, se renderam a experimentos do tipo que os modernos agora atribuem à ciência hermética. Os alquimistas autênticos sempre estabeleceram condições éticas e espirituais para as suas operações. Em vista do seu sentido vivo da natureza, o seu mundo ideal é apresentado como inseparável daquele outro — que se pode chamar de Gnosticismo, Neoplatonismo, cabala e teurgia — tudo menos química. Da mesma forma, com uma multidão de fórmulas semi-expressas, eles deram a entender “para aqueles que podem ler nas entrelinhas,” por exemplo, que o enxofre alquímico representa a vontade (Basil Valentine e Pernety), que o fumo é “a alma separada do corpo” (Geber), que a “virilidade” é o mistério do “arsênico” (Zósimo) — e desta forma se poderia citar um número infinito de textos e autores. Assim é que com uma variedade desconcertante de símbolos os “Filhos de Hermes” todos conseguem dizer a mesma coisa e repetir orgulhosamente o quod ubique, quod ab omnibus et quod semper.
Jacob Boehme revela-nos o axioma sobre o qual se baseia esse conhecimento único, essa tradição que reivindica para si a universalidade e a primazia “Entre o Nascimento Eterno, a Restauração da Queda e a descoberta da Pedra Filosofal não há diferença.”
Estaríamos talvez diante de uma corrente mística? Se sim, por que o disfarce e a ocultação hermética? Atendo-se à ideia convencional de “misticismo” (um sentido que no Ocidente adquiriu desde o período dos Mistérios clássicos e especialmente com o cristianismo), deve-se assinalar que não é misticismo. Demonstrar-se-á antes que é uma ciência real, na qual a reintegração (com o estado primordial) não tem uma finalidade moral, mas é concreta e ontológica, mesmo ao ponto de conferir certos poderes supernormais, uma de cujas aplicações incidentais pode até ser a famosa transmutação que envolve substâncias metálicas.
Esta característica do processo hermético constitui a primeira razão para o seu ocultamento. Não para fins monopolistas superficiais, mas por razões técnicas internas, qualquer ciência deste tipo sempre se protege por meio de segredos iniciáticos e de expressão por meio de símbolos. Mas há uma segunda razão, que para ser compreendida exige o conhecimento fundamental de uma metafísica geral da história. O conhecimento hermético-alquímico tem sido descrito como uma ciência “sagrada”, mas a designação prevalecente que melhor a caracteriza é a de Ars Regia ou “Arte Real.” Qualquer um que estude as variedades de espiritualidade que evoluíram no que se chama de tempos históricos pode verificar que existe uma oposição fundamental, uma que se pode reduzir analogicamente ao conflito entre “realeza” e “sacerdotalidade”.
A tradição iniciática “real”, nas suas formas puras, pode ser considerada o vínculo mais direto e legítimo com a única, primordial Tradição. Em tempos mais recentes, ela nos aparece nas suas variantes heróicas, isto é, como uma realização e reconquista condicionada por análogas qualidades viris adequadas, no plano do espírito, ao guerreiro. Mas, por outro lado, há a posição sacerdotal no sentido estrito, com qualidades diferentes da primeira, e às vezes opostas a ela. Isso acontece especialmente quando, levada ao profano nas suas formas teísticoddevocionais, ela confronta o que foi referido acima como as variações “heróicas” da tradição real. Do ponto do que se simboliza como a “realeza divina” original, esta segunda tradição agora aparece como algo em ruínas, cuja culpa deve ser atribuída aos elementos sentimentais, emocionais, teísticoddevocionais e místicos - especialmente no Ocidente - que estão constantemente ganhando terreno na sua tentativa de manter os seus elementos esotéricos em quase total escuridão.
Não é por acaso que a tradição hermético-alquímica se chame a si mesma de Arte Real, e que tenha escolhido o Ouro como um símbolo central real e solar, que ao mesmo tempo nos remete à Tradição primordial. Tal tradição se apresenta a nós essencialmente como a guardiã de uma luz e uma dignidade que não podem ser reduzidas à visão religiosa-sacerdotal do mundo. E se não há fala nesta tradição (como em um ciclo de outros mitos) de descobrir ouro, mas apenas de fazê-lo, isso só mostra quão importante, no sentido já indicado de reconquista e reconstrução, o momento heróico se tornou.
Assim se pode facilmente entender a segunda razão para disfarçar a doutrina. Com a queda do Império Romano, os princípios predominantes do Ocidente passaram a se tornar a base para a outra tradição - a sacerdotal - que na sua decadência foi quase completamente despojada de todo o seu alcance esotérico e metafísico para se converter em uma doutrina de “salvação” em nome de um “Redentor.” Sendo as coisas assim, os hermetistas, em contraste com outras organizações iniciáticas que eram tributárias da mesma veia real secreta, em vez de virem à luz e se apresentarem para a batalha, escolheram se esconder. E a Arte Real foi apresentada como o arco alquímico de transmutar metais básicos em ouro e prata. Ao fazer isso, ela não mais caiu sob a suspeita de heresia, e até passou como uma das muitas formas de “filosofia natural” que não interferia com a fé; mesmo entre as fileiras de católicos se pode discernir as enigmáticas figuras de mestres herméticos, de Raimundo Lúlio e Alberto Magno até o Abade Pernety.
Em um sentido mais estrito, e deixando de lado o fato de que os vários autores alquímicos ocidentais declaram que cada um empregou uma linguagem cifrada diferente para se referir às mesmas coisas e às mesmas operações, não há dúvida de que a alquimia não é simplesmente um fenômeno ocidental. Há, por exemplo, uma alquimia hindu e uma alquimia chinesa. E qualquer um que tenha algum contato com o tema pode ver que os símbolos, as “matérias” e as principais operações correspondem umas às outras; mas especialmente a estrutura de uma ciência física (e em última análise metafísica) corresponde interiormente e exteriormente ao mesmo tempo. Tais correspondências são explicadas pelo fato de que, uma vez presentes, as mesmas concepções em relação à visão geral e “tradicional” do mundo, da vida e do homem, levam de forma bastante natural às mesmas consequências, mesmo na consideração de problemas técnicos especiais como o da transmutação. Assim, enquanto essa concepção “tradicional” persistir - mesmo quando apenas residualmente em distorções filosóficas e lógicas sem vida em relação às quais as diferenças entre Oriente e Ocidente eram mínimas em comparação com aquelas que existiriam mais tarde entre a alquimia e a mentalidade moderna - enquanto ela tem continuado a permanecer viva, se encontrará a alquimia reconhecida e cultivada por espíritos ilustres, pensadores, teólogos, “filósofos naturais”, reis, imperadores e até papas. A dedicação a uma disciplina desse tipo não tem sido considerada incompatível com o mais alto nível espiritual ou intelectual. Uma prova, entre muitas outras, é que mais de um tratado alquímico foi atribuído ao “mestre angelical”, Tomás de Aquino.
Uma tradição alquímica se estendeu enigmaticamente não apenas através de pelo menos quinze séculos de história ocidental, mas até mesmo através dos continentes, tão profundamente no Oriente quanto no Ocidente.