Na tradição chinesa, a região nórdica, o país dos “homens transcendentes”, é identificada com o país da “raça dos ossos moles” e com um país ao norte do mar do Norte, ilimitado, sem intempéries, com montanha e fonte simbólicas, chamado “extremo Norte”.
-
O Tibete conserva a recordação de Tshang Chambhala, a mística “Cidade do Norte”, concebida como ilha onde teria “nascido” o herói Guesar, e os mestres das tradições iniciáticas tibetanas dizem que os “caminhos do Norte” conduzem o yogi para a grande libertação.
-
A tradição constante das origens na América, do Pacífico à região dos Grandes Lagos, fala da terra sagrada do “Norte longínquo” perto das “grandes águas”, de onde provieram os antepassados dos Nahua, Toltecas e Aztecas; o nome Aztlan compreende também a ideia de brancura, como o sveta-dvipa hindu.
-
Certas lendas da América Central mencionam quatro antepassados primordiais da raça Quiché que tentaram alcançar Tulla, a região da luz, encontrando apenas gelo sem Sol.
-
A Tulla ou Tullan, pátria de origem dos antepassados Toltecas, corresponde visivelmente à Thule dos gregos, nome aplicado por analogia a diversas regiões.
-
Segundo as tradições greco-romanas, Thule teria se localizado no Mare Cronium, a parte setentrional do Atlântico, e é nessa região que tradições mais tardias situaram as ilhas Afortunadas e as ilhas dos Imortais, ou a ilha Perdida que “se esconde à vista dos homens”.
-
Thule se confunde com o país lendário dos Hiperbóreos, no extremo norte, donde as estirpes aquéias trouxeram o Apolo délfico, e com a ilha Ogígia, “umbigo do mar”, que Plutarco situa ao norte da Grã-Bretanha, perto do lugar ártico onde permanece adormecido Cronos, o rei da idade do ouro.
-
A confusa noção da noite clara do Norte contribuiu para conceber a terra dos Hiperbóreos como lugar de luz eterna; esse eco subsistiu até a romanidade tardia, e a terra primordial assimilada à Grã-Bretanha foi destino de Constâncio Cloro, que teria avançado até lá para contemplar Cronos e gozar de “um dia quase sem noite”.
-
Quando a idade do ouro se projetou no futuro como esperança de um novo saeculum, reapareceu o símbolo nórdico: é do Norte que se esperará o Príncipe poderoso que restabelecerá a justiça segundo Lactâncio; no Norte renascerá o herói tibetano Guesar; em Shambala nascerá o Kalki-avatara que porá fim à “idade obscura”; é o Apolo hiperbóreo que, segundo Virgílio, inaugurará uma nova idade do ouro sob o signo de Roma.
-
A lei da solidariedade entre causas físicas e causas espirituais se manifesta na ligação íntima entre a “queda” de uma raça absolutamente primordial e a declinação física do eixo da terra, fator de alterações climáticas e catástrofes periódicas para os continentes.
-
É só depois de se tornar deserta a região polar que se pode verificar o desaparecimento progressivo da tradição originária que levaria à idade do ferro, kali-yuga, “idade do lobo” na Edda, e no seu limite aos tempos modernos propriamente ditos.