O locus existencial próprio a esse homem reside no mundo da Tradição, conceito que, convergindo com a exegese de René
Guénon sobre a crise do mundo moderno, designa uma sociedade regida por princípios que transcendem o humano e o individual, ordenando todos os setores a partir de uma instância superior.
A hegemonia do mundo moderno configura-se como a antítese absoluta de qualquer civilização tradicional, restando virtualmente nula a possibilidade de ações ou reações eficazes que, partindo de valores tradicionais, logrem alterar o estado atual das instituições, ideias e energias predominantes.
A permanência de um grupo exíguo de homens que se mantêm íntegros entre as ruínas permite a preservação de um testemunho válido através do combate em posições perdidas, do isolamento material ou da afirmação intelectual de valores que impeçam o fechamento total do horizonte espiritual.
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Subsistência de indivíduos vinculados ao mundo tradicional em meio à dissolução
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Possibilidade de isolamento ou de manutenção de uma ação de retaguarda intelectual
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Importância do testemunho para a preservação de dimensões existenciais distintas
A problemática fundamental transcende o isolamento material e reside na definição de critérios práticos para a condução da existência cotidiana e das relações humanas daqueles que não podem ou não desejam romper totalmente os vínculos com a vida corrente.
O homem aqui considerado carece de qualquer suporte externo em organizações ou instituições que permitissem a realização de seus valores interiores, enfrentando um ambiente social, psíquico e intelectual regido por uma desordem destituída de legitimidade superior, tal como prenunciado na sentença sobre a progressão do deserto.
É imperativo distinguir o mundo da Tradição das sobrevivências de hábitos e instituições do mundo burguês, visto que a crise contemporânea atinge primordialmente o sistema consolidado após a revolução do Terceiro Estado e a industrialização, o qual já se encontrava exaurido de vitalidade original.
A relação do tipo humano em questão com o mundo burguês deve ser obrigatoriamente negativa, reconhecendo que as forças subversivas do socialismo e do marxismo operam como uma nêmesis ou efeito de ricochete das energias liberadas pela própria revolução democrática e liberal.
Deve-se eliminar a tentativa de defesa dos remanescentes do mundo burguês como bastião contra a subversão, pois tal orientação fundamenta-se em uma ilusão sobre a reversibilidade das transformações históricas e na ausência de legitimidade superior dessas estruturas.
A associação de valores tradicionais às formas residuais da civilização burguesa acarreta o risco de comprometer a integridade de tais princípios, expondo-os aos ataques legítimos direcionados à decadência burguesa e demonstrando uma compreensão insuficiente da essência da Tradição.
A solução reside no rompimento de vínculos com o que está destinado ao colapso, mantendo a continuidade em um plano essencial e interior através de uma doutrina esotérica de princípios pré-formais, permitindo a maior liberdade externa possível sem dependência de formas históricas passadas.
Diante da impossibilidade de restauração do sistema normal, resta determinar os termos para aceitar a situação de dissolução absoluta sem ser afetado interiormente, mantendo um espírito governado por princípios distintos mesmo diante do pensamento e estilo de vida contemporâneos.
A tática de contribuir para a queda do que já se encontra vacilante em vez de prolongar artificialmente o mundo de ontem apresenta-se como uma possibilidade para o grupo de homens diferenciados, assumindo os riscos inerentes a essa ação aceleradora no vácuo de poder da época atual.
A crise da civilização burguesa pode ser compreendida como a negação de uma negação, conforme a terminologia de Hegel, resultando em um espaço livre que, embora possa degenerar em múltiplos caos ou no nada da civilização material, abre o pressuposto para uma futura ação formativa.
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Interpretação da dissolução burguesa como fenômeno dialético positivo
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Referência à negação da negação hegeliana
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Possibilidade de abertura de um novo espaço para ação futura