Tantrismo e a ênfase no autofortalecimento e no conhecimento tradicional
Recuperação e ênfase no “conhecimento tradicional” de natureza metafísica em oposição à profana.
Presença desse conhecimento nas origens das civilizações tradicionais superiores, anteriores ao advento da civilização moderna.
Necessidade de esclarecer as implicações desse tipo de conhecimento.
A natureza da revelação (shruti) na tradição hindu
Compreensão da metafísica hindu baseada na “revelação” (shruti), distinta da concepção das religiões monoteístas.
Shruti como exposição do que foi “visto” e revelado pelos rishi, indivíduos de elevada “estatura” que fundamentam a tradição.
Etimologia de rishi a partir de dric (“ver”), significando “aquele que viu”.
Os Vedas como fundamento da tradição ortodoxa hindu e a relação etimológica entre Veda e o radical vid (“ver”, “saber”).
Paralelo ocidental no conceito de “ideia” na Hélade, com a raiz id análoga ao sânscrito vid.
A tradição como registro e proposta da visão direta dos rishi em um plano superindividual e super-humano.
Atitudes possíveis perante o conhecimento revelado
Comparação com a atitude perante um explorador ou um físico que apresenta descobertas.
Possibilidade de crença, confiando na autoridade e veracidade do interlocutor.
Possibilidade de verificação pessoal da verdade anunciada, através da reprodução da experiência.
Caráter experimental do conhecimento metafísico tradicional, que oferece os meios para sua verificação direta.
Contraste com a filosofia moderna e aproximação com a cognitio experimentalis dei da mística cristã, embora com diferenças de fundo (emocional/noético, religioso/metafísico).
A orientação prática dos Tantras como sadhana-shastra
Afirmação tantrica da inutilidade da mera exposição teórica da doutrina.
Importância central do método prático de autorrealização (sadhana) e dos meios rituais para o reconhecimento de verdades ocultas.
Definição dos Tantras como sadhana-shastra, onde sadhana implica esforço, treinamento e atividade para alcançar um resultado.
Citação de um autor tântrico: “At the present time the general public are ignorant of the principles of the Tantra Sastra. The cause of this ignorance is the fact that the Tantra Sastra is a Sadhana Sastra, the greater part of which becomes intelligible only through Sadhana.”
A necessidade da transformação pela ação (kriya)
Insuficiência da teoria da identidade entre atman e brahman sem a prática transformadora.
Negação do valor do conhecimento puramente teórico.
A ação (kriya) como palavra de ordem para a obtenção do verdadeiro conhecimento.
Expressão no Budismo Tântrico (Vajrayana) através do símbolo da união sexual entre o “caminho eficaz” (upaya), de papel masculino, e o conhecer.
A aplicação do ponto de vista experimental ao culto (puja) e às ciências da natureza
Extensão do experimentalismo tântrico ao culto e ao conhecimento da natureza.
Noção de que não se pode adorar um deus sem “tornar-se” esse deus, substituindo o dualismo religioso pelo experimentalismo.
Oposição entre o conhecimento “tradicional” e o conhecimento científico moderno, seguindo tradições anteriores.
A perspectiva moderna de conhecimento e suas limitações
Apreensão da realidade apenas através dos sentidos físicos e instrumentos científicos (aspectos “fenomênicos”).
Caráter indireto, condicionado e abstrato do conhecimento científico, carente de intuição ou evidência intrínseca.
A filosofia moderna como abstração e especulação conceitual, destituída de realidade.
Abandono do ideal de “visão” direta da realidade (intuitio intellectualis).
A filosofia crítica de Kant e a intuição intelectual como faculdade negada ao homem, limitando-o ao conhecimento sensorial e científico.
A superação das limitações no ensinamento esotérico hindu
Possibilidade de superar a limitação através de métodos como os do yoga clássico (yoganga).
Visão de uma realidade única e multidimensional, acessível através de uma hierarquia de experiências.
Preservação do ideal de conhecimento direto (sakshastra, aparokshajnana), de experiência real e evidência imediata (anubhava).
Acesso a níveis superiores de realidade por parte do rishi, do yogi ou do siddha tântrico, em um experimentalismo integral e transcendental.
Distinção entre um método relativo e condicionado de perceber a realidade e um método absoluto.
A conexão entre epistemologia tradicional e as preocupações do Tantrismo
Dependência do conhecimento superior em relação à autotransformação e a uma mudança existencial e ontológica de nível.
Centralidade da ação (sadhana) nesse processo.
Contraste com o conhecimento moderno, que confere poder prático, mas não altera a condição humana existencial.
O conhecimento científico moderno e a condição humana inalterada
Aplicações técnicas da ciência com consequências materiais impressionantes, mas sem mudança na situação existencial do homem.
Elementos fundamentais da física como entidades algébricas abstratas, sem imagem intuitiva ou conceito.
Relação inalterada com os fenômenos naturais após o conhecimento científico.
Dessacralização e petrificação do mundo em meras aparências mudas pela formação científica moderna.
Restrição das experiências qualitativas ao domínio estético e lírico, sem valor científico ou metafísico.
O poder (shakti) como alibi da ciência moderna e sua concepção no Tantrismo
Reivindicação de poder como prova da validade da ciência moderna.
Distinção entre um poder relativo, externo, inorgânico e condicionado (o da tecnologia) e o poder verdadeiro.
Poder tecnológico como algo precário, que não representa uma posse do Eu e não altera a condição humana.
Vulnerabilidade do homem moderno sem suas máquinas, devido à atrofia de suas verdadeiras forças.
O poder autêntico como aquisição direta de seres superiores
Poder que dobra, muda e suspende as leis naturais, em oposição ao poder tecnológico que as obedece.
Condição para esse poder: a superação da condição humana, do limite representado pelo “Eu físico” (bhutatman).
O axioma de todo yoga e sadhana tântrica como a superação do homem.
Siddhis como consequência natural de um status existencial e ontológico superior, e não como objetivo final.
Siddhis como “perfeições”, características de uma superioridade espiritual, intransferíveis e não “democratizáveis”.
O hiato entre o mundo tradicional e o moderno: conhecimento e poder “democráticos” versus “esotéricos”
Conhecimento e poderes modernos como disponíveis a qualquer um através de treinamento institucional, sem envolver o núcleo do ser.
“Democratização” como princípio orientador da organização da ciência e tecnologia modernas.
Diferenciação real dos seres como condição para um conhecimento e poder inalienáveis, intransferíveis e exclusivos por sua própria natureza.
Oportunidades inferiores desenvolvidas no Kali Yuga em contraste com as orientações superiores das civilizações tradicionais.
Considerações introdutórias sobre a ciência da natureza tradicional
Exclusão das qualidades secundárias pela ciência moderna e foco nas qualidades primárias (extensão e movimento).
Desenvolvimento na Índia de uma física qualitativa-psicológica, com “átomos” (paramanu) e “elementos” (mahabhuta, tanmantra) correspondentes a qualidades sensoriais.
Esses princípios como objetos potenciais de experiência direta através de faculdades desenvolvidas pelo yoga e sadhana.
Evidência especial ou iluminação correspondente à percepção desses princípios.
O grau liminar do conhecimento superior e a metafísica tântrica da shakti
Estado de samadhi no Jnana yoga como identificação entre ser e conhecer, superando a oposição sujeito-objeto.
A essência como shakti (poder) na metafísica tântrica, conectando-se com a doutrina dos siddhis.
Processo cósmico de explicitação, obnubilação, despertar e união da Shakti com o princípio masculino (Shiva).
Repetição desse processo no praticante do hatha yoga tântrico como base de uma doutrina da certeza.
A crítica tântrica ao Vedanta de Shankara e a doutrina da maya
Argumento de um comentarista tântrico: as coisas são poder e a “força de uma coisa não espera pelo reconhecimento intelectual”.
Citação: “karma, a força da ação, forçá-lo-á a acreditar nela [no mundo]”.
Fim dos problemas metafísicos apenas com a ativação do princípio Shiva no indivíduo através da sadhana.
Citação sobre a Escritura como meio: “Toda Escritura é apenas um meio. Não é útil para aquele que ainda não conheceu a Devi [deusa = Shakti] e não é útil para aquele que já a conheceu.”
Menção ao tema Upanishadico de abandonar os livros após atingir o verdadeiro conhecimento.
A polêmica contra a doutrina da maya e a reafirmação da concretude tântrica
Crítica à doutrina vedantina de Shankara que considera o mundo como falso (maya) em relação ao nirguna-brahman.
Argumento dialético: se o vedantino é um ser humano finito (jiva), ele próprio é maya, e assim também sua doutrina.
Afirmação tântrica de que o mundo é maya apenas do ponto de vista do brahman ou do siddha, mas não da consciência finita comum.
Impossibilidade do yoga e da sadhana se houver um hiato absoluto entre o princípio supremo e o mundo.
Citação de um comentário à Isha-Upanishad: “é impossível que algo se transforme em sua própria contradição”.
Questionamento: “Somos mente e corpo: se a mente e o corpo (por pertencerem ao mundo da maya) são falsos, como se pode esperar alcançar através deles aquilo que é verdadeiro?”.
Necessidade de uma certa continuidade entre o indivíduo e o princípio para possibilitar a realização espiritual.
Formulação tântrica de uma doutrina do “brahman ativo” através da noção de shakti e do reformulação da teoria da maya.