Os Tantras, seguindo a orientação da Sankhya, distinguem um corpo tríplice: corpo “causal” (karana-sharira), que segue os tattvas superiores; corpo “sutil” (sukshma-sharira), com dois aspectos (mental e vital); e corpo “material” ou “denso” (sthula-sharira), que é o corpo empírico, o soma.
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O corpo sutil em seu aspecto vital desempenha em relação ao corpo material a mesma função que
Aristóteles atribuiu à “entelequia”, noção retomada por algumas teorias biológicas modernas de orientação vitalista.
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A diferença entre a entelequia aristotélica e o vitalismo moderno, por um lado, e os ensinamentos hindus, por outro, é que nestes últimos a entelequia não se reduz a um mero princípio explicativo.
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Prana, a força vital universal que constitui o corpo sutil, pode também ser experimentado durante o estado sutil coincidindo com o despertar do próprio corpo, aparecendo luminoso e radiante (tejas).
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A doutrina dos cinco vayus (“correntes”), que são os cinco modos de existência de prana, é abstrusa por ser elemento de uma ciência experimental sobrenatural (yóguica) e por não haver acordo sempre nos textos sobre as definições corretas.
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O primeiro vayu, prana (o mesmo nome da força vital universal), tem caráter solar e exerce influência atrativa sobre o meio cósmico; apana, de caráter terrestre, corresponde à energia vital em funções excreto-ejaculatórias.
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Vyana, o “sopro permeante”, permeia e mantém unido o corpo, presidindo o metabolismo e os processos orgânicos; udana tem função oposta à de prana (exalação em vez de inalação) e se associa às funções de fala e à corrente ascendente na sushumnanadi.
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No hatha yoga, prana e apana são considerados antitéticos (o primeiro orientado para cima, o segundo para baixo), e vyana tenta manter esses opostos em equilíbrio.
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O simbolismo hermético-alquímico ocidental alude à relação especial entre o corpo pránico e Shakti ao falar da “mulher dos filósofos” ou “mulher oculta”.
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O corpo sutil é geralmente considerado a sede dos samskaras ou vasanas, prefigurações transcendentais interiores correspondentes ao que o ser individual vivo afirma ou deseja em sua profunda vontade transcendental de tornar-se.
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Os samskaras têm alguns de caráter orgânico e outros de caráter psicológico, envolvendo a forma e a constituição física de um dado corpo, bem como o temperamento, o caráter e as tendências habituais de um dado indivíduo.
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A filosofia ocidental encontrou uma noção análoga, em
Kant e Schopenhauer, como “caráter inteligível ou mnemônico”, mas a ideia hindu tem implicações mais amplas, estendendo-se aos domínios biológico e sutil.
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A questão da origem dos samskaras é complexa e, embora a crença popular hinduísta apele à reencarnação, isso não resolve o problema, mas apenas o reformula em outros termos, pois a série deve eventualmente parar e ser explicada em função de um ato original de autodeterminação.
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A resposta não pode ser localizada no tempo e no espaço, pois nessas categorias não há continuidade entre as várias manifestações de uma única consciência; a continuidade se encontra no plano sutil vital e no nível de buddhi-tattva.
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No nível mais alto dos tattvas impuros, a pura autodeterminação, que é uma “fatia” dos planos superiores, procede da esfera dos tattvas puros e do corpo causal, traduzindo-se no ato de buddhi.
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Não há explicação para essa determinação, pois ela ocorre em um domínio onde a razão suprema do agir reside no próprio ato, onde causas não são determinadas por outras causas e onde as formas se manifestam como estágios do que foi chamado “jogo” (lila) de Shakti.
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Os samskaras não devem ser confundidos com o núcleo real e mais profundo da personalidade, que a partir do nível de buddhi se encontra fora das condições das existências anteriores, o que contribui para desmistificar a crença popular na reencarnação, que não faz parte dos ensinamentos esotéricos.
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A teoria encontrada nos Tantras foi desenvolvida em vista de aplicações práticas e desempenha papel fundamental na sadhana-shastra, constituindo o pano de fundo e o fundamento de um sistema em que a ação é central.
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O dito tântrico “Todo o conhecimento adquirido por uma mente brilhante é inútil se não se obtém o poder conferido pela sadhana” resume essa orientação.
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Os capítulos seguintes da obra expõem os rituais e as técnicas do yoga tântrico.