O valor, como relação incondicionada, se gemina em um positivo e em um negativo, aos quais se pressupõe como indiferença, e os momentos de sujeito e objeto, ser de direito e ser de fato, infinito e determinidade, liberdade e necessidade, copresentes na consciência empírica, são os reflexos dessa geminação.
-
Ocorrido o ato, a contradição não subsiste mais senão no fato de que a afirmação é absoluta transparência de liberdade, e a afirmação da liberdade é tal somente se implica a possibilidade da afirmação da não-liberdade, e vice-versa.
-
A relação vivida como afirmação ou como negação compreende dois significados opostos do mesmo elemento, o que pode ser explicado somente em função de um arbitrio absoluto, que é a perfeita consumação do antecedente do ato e da situação da experiência dada em valor.
-
O Eu, como indivíduo, pode também não ser, e esse seu não-ser não é uma fantástica geena ou antemundo, mas a imediatez mesma da vida dada, a obliquidade da “coisa que é e não é”, o apeiron do não-valor em unidade com sua contradição obtusa e latente.
-
Tudo isso, em si, é negação do Indivíduo, é o me on que, segundo a palavra de
Parmênides, por nenhuma violência poderá jamais ser feito ressurgir ao ser.
-
Esse não-ser é tal enquanto “ser”, enquanto existencialidade empírica em que a consciência esteja profundada e resolvida sem resíduo, privado da relação pela qual é não-ser, pois essa o resolveria em contradição.
-
Com um ato incondicionado o indivíduo pode dar-se a si mesmo, e nisto o elemento do valor é posto como positidade que faz ato de si, de sua natureza incondicionada, retomando em si afirmação e negação como duas possibilidades indiferentes às quais é igualmente adequada.
-
Surge assim o ponto de um optare, e a escolha é a individuação ulterior do ato de absoluta liberdade postulada em ordem ao seu ser tal.
-
No referimento aos elementos da consciência empírica, essas opções podem ser definidas como “pôr-em-outro-o-próprio-princípio” e “pôr-em-si-o-próprio-princípio”: identificação, remissão e dependência do objetivo, oposto ao consistere no subjetivo e ao resolver e arder nele o objetivo.
-
As duas direções valem igualmente como afirmação do Eu, e o valor e o não-valor relativos a um ou outro caso são espécies em que o valor, e a potência do indivíduo, se articula e se conjuga somente consigo mesmo enquanto incondicionado.
-
É importante fixar que o que o Eu encontra originariamente como dado é o conflito e a problemática de finito e infinito coexistentes, e que as filosofias que se esforçam por eliminar o dissídio mediante expedientes dialéticos acabam de fato em posições constituindo a antítese nítida do conceito mesmo de valor.
-
Quando se trata não de simples conceitos, mas da nuda experiência da potência do Eu, o contraste se manifesta atual e real em todo ponto da experiência, pois o mundo ao qual o homem se desperta é tal que inúmeras determinações permanecem no ponto mesmo em que dentro delas relampeja, como a subjetividade à qual se referem, o infinito.
-
Como exemplo típico dos equívocos dialéticos, indica-se a teoria do Eu transcendental da filosofia pós-kantiana, ligada a uma falsa virada já acusada no desenvolvimento dessa filosofia.
-
E. Boutreix e Jacobi são referidos em nota a propósito da liberdade como potência infinita e da composição da consciência por representação do condicionado e do incondicionado.
-
Nessa filosofia é característico um desdobramento do Eu em “Eu empírico” e “Eu transcendental”, cujos dois termos quase nunca são bem definidos, e essa oscilação permite tentar reduzir a bom preço o dado irracional da experiência.
-
O Eu, entendido como aquela absoluta experiência e nua centralidade que mediatiza tudo e não é mediada por nada, é não multiplicável e não tem um segundo.
-
Onde se distingue um Eu empírico de um Eu transcendental, ao menos um deles deve ser não uma abstração, mas absolutamente um nada.
-
O Eu real não seria o Eu transcendental do idealismo, pois o caráter fundamental do Eu real é ser somente experiência e evidência imediata, ao passo que o Eu transcendental é um conceito construído pela especulação em relação ao problema da conhecimento.
-
Não é possível reificar ou hipostasiar o Eu transcendental e eludir o problema dizendo que somente ele é e que o Eu real é apenas uma ilusão, pois tal posição cairia sob a crítica que atinge a filosofia dogmática monista.
-
Deve-se estabelecer em que relação efetiva se encontra esse Eu com o que ele põe e postula, e isso não é possível sem a realidade de faculdades correspondentes, de faculdades do indivíduo que remetem ao Eu diretamente percebível.
-
A especulação idealista foi além do plano puramente gnoseológico ao conferir ao princípio transcendental os caracteres de uma potência que gera e determina a realidade, e duas consequências se seguem imediatamente.
-
A primeira é suprimir o caráter de experimentabilidade do Eu transcendental na mesma medida em que se foi entendê-lo mais que como um princípio lógico ou ideal.
-
Já em
Kant a função transcendental da “imaginação construtiva”, legisladora da natureza, é distinta da imaginação reprodutiva atribuível ao centro consciente do Eu.
-
Para explicar a possibilidade de um saber objetivo e dos juízos sintéticos a priori seria necessário admitir a identidade formal do processo que gera as coisas com o processo intelectual humano, o que não implica que o humano gere realmente as coisas em sua existência.
-
O próprio do idealismo pós-kantiano é reconhecer o princípio produtivo das coisas como função do Eu de direito, mas, como essa função não resulta diretamente à consciência, o idealismo deve compreendê-la como função subjetiva, mas inconsciente ou pré-consciente.
-
A possibilidade de um saber objetivo seria dada por uma “reminiscência” do momento cosmogônico transcendental do Eu, o que não supera o aristotelismo escolástico senão para tomar refúgio em
Platão.
-
J.C. Fichte, W.J. Schelling, Hegel, E. von Hartmann e J. Royce são referidos em nota a propósito das implicações e das aprias dessa posição.
-
A única solução possível consistiria em negar o inconsciente como princípio distinto, falando de um subconsciente e vendo nele um domínio suscetível de ser elevado à consciência e feito objeto de experiência possível, sendo propriamente Eu.
-
Esse é o ponto de vista aqui adotado, e em caso diverso a teoria da “reminiscência transcendental” cai sob as críticas de E. von Hartmann.
-
O resultado concreto é que, se o princípio transcendental deve ser posto, é forçoso, do ponto de vista da experiência imediata, pô-lo como não-conscio, e o resto entra em uma ordem de postulações que caem fora do que é considerável pelo idealismo como filosofia, sendo postulações concernentes a possíveis transformações da consciência ordinária, portanto no campo de uma ação transcendental.
-
A antítese consiste essencialmente na assunção do Eu no seu caráter radical de liberdade e incondicionalidade, e o Eu no nível da experiência ordinária se encontra preso em um conjunto de determinações que não pode reconectar a si como incondicionado.
-
Essas determinidades não se impõem ab extra, e tampouco são criticamente sustentáveis como meras imagens transmitidas por uma mente divina, como em Berkeley.
-
O ato que faz de base à representação do real é do Eu, mas o Eu nele se experimenta como ligado a si mesmo, necessitado e distante do ponto do incondicionado, experimentando-se não como vontade livre, mas, para usar um termo de Secrétan, como uma “vontade querida”.
-
Se se afirma que a vontade real do Eu se identifica sem resíduo com a atividade objetivante, a vontade que sofre a determinação como violência não é senão uma “abstração” ou ilusão que deve reconhecer na vontade objetivante sua verdade e aspiração mais profunda.
-
A antítese se desfaz por esse procedimento pelo simples fato de que ela tem como condição o assurgir do Eu à consciência de seu puro princípio, ao passo que com esses pressupostos o indivíduo é restituído sem resíduo à natureza, em uma confirmação da oblíqua coalescência própria do alogos, à “coisa que é e não é”.
-
Essa é a solução impostada pelas formas de filosofia idealística, aqui criticadas.
-
O resultado complessivo é a traslação a uma atividade transcendental a pensar-se não apenas como inconsciente ou subconsciente, mas inferior ao nível do que define propriamente a existência pessoal, excluindo o verdadeiro ponto da liberdade e necessariamente idêntica a liberdade e possibilidade idêntica a realidade.
-
Nesses termos é forçoso pensar a função transcendental se ela deve medir-se com a ordem existencial, e igualmente é forçoso identificar com essa função o Eu, o que significa degradá-lo, pois os caracteres “cósmicos” objetivamente determinantes dessa função, quanto ao modo, ficam aquém do que é propriamente subjetivo.
-
A conclusão é a negação do conceito mesmo de valor: o Eu como tal não deve ser posto, ou, formulando diversamente, se a sistematização dialética deve manter-se em pé como sistema fechado satisfatório, então o Eu não deve ser posto.
-
Se o Eu se põe, toda a construção artificial salta, o irracional e o antitético existencial se reafirmam, e esse irracional deve ser, pois quem não sabe provocá-lo e sustentá-lo deixa cair a condição elementar para atingir o estado de absoluta justiça.
-
O Eu que é o Eu não é nem o “empírico” nem o “transcendental” do idealismo, sendo ambos conceitos construídos pour cause e existentes somente na cabeça do filósofo.
-
O Eu real não é o empírico porque, vivendo entre infinitas determinações, não é um “pensado”, um posterius, mas o ponto central diretamente apercebido que se pressupõe a todo conceito ou experiência.
-
O Eu real não é o transcendental porque esse representa a negação de tudo quanto é propriamente subjetivo.
-
A gênese dessas duas noções fictícias e a oscilação entre elas têm uma raiz puramente prática: refletem na esfera do pensamento o fato de que não se sabe superar um limite, e assim, insistindo nas posições, debate-se em um beco sem saída.
-
A visão da mais simples filosofia, que constata a finitude da pessoa humana e lhe reconhece uma dignidade sobrenatural, vendo nela como liberdade um princípio irredutível a qualquer “natureza”, é mais conforme à teoria do Indivíduo absoluto do que as visões “transcendentais”.
-
Em ordem ao estado humano de existência há uma visão do chamado Corpus Hermeticum, retomada por Pico della Mirandola: o homem, concebido na totalidade de suas possibilidades, está acima dos seres divinos porque, junto à natureza imortal à qual estes estão ligados, une aquela mortal.
-
Essa visão é outro modo de expressar a coexistência dos opostos como valor elementar e base da justificação da condição humana.