No gnosticismo cristão, encontramos o tema das peripécias da Sofia cósmica no mundo inferior até que a despose Cristo, o Logos, o que reflete ou “leva” o Um (o “filho” do ser transcendente), e a devolva ao mundo da luz.
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O contexto simbólico segundo o qual Simão o Gnóstico via na mulher que tinha escolhido — Helena (Selene, a Lua), antiga prostituta a que converteu na sua esposa — a encarnação de Sofía, é verdadeiramente transparente.
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Num plano mais geral, da gnose de Marção fica-nos este importante fragmento: “Eu sou o filho do Pai, que está para além de toda existência, enquanto que eu estou na existência. Eu vim [à existência] para ver [as coisas] minhas e não minhas [estas coisas hão de relacionar-se, respectivamente, com o masculino e o feminino da Díada primigénia] e também não inteiramente minhas [na fase de emanação], porque eu sou de Sofia, que é a [minha contraparte] feminina, e ela as fez para si mesma. Mas eu atribuo o meu nascimento àquele que está para além da existência e regresso ao princípio de onde vim”.
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As distintas fases, ou situações, estão bem indicadas no ensino dos Mistérios, referido por Ireneu, acerca de Adamas, o “inquebrantável”, também chamado “pedra de fundamento” e “homem glorioso”.
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Fala-se da última barreira que em todo homem encontra o homem interior, o homem que deriva do arquétipo celeste, Adamas, o qual, “caído numa obra de argila e creta”, “esqueceu-se de tudo”.
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Estes ensinos, pois, que se referem à mitologia clássica, falam da dupla direção, do fluxo e o refluxo em sentido oposto, de Oceano, das Águas, cujo efeito é o nascimento dos homens num caso, e dos deuses no outro (trata-se respectivamente das situações da fase descendente e da fase na qual as Águas são contidas e devolvidas ao céu, de modo que termina então o “reino da mulher”); e diz-se: “Em primeiro lugar, há a bem-aventurada natureza do homem celestial, Adamas; logo, a morte natural aqui em baixo; em terceiro lugar, há a raça dos sem rei que ascendeu ao céu, onde está Mariam, a que é buscada [o feminino como princípio de reintegração]”.
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O ser produzido pela corrente rejeitada para o alto é chamado o “homem andrógino, arsenothelus, que está em cada um”.
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Fala-se finalmente de duas estátuas de homens desnudos itifálicos (com o phallus ereto) do templo de Samotrácia, que são interpretadas, uma como imagem do macho primigénio, Adamas, e a outra como imagem do homem renascido, “que é em tudo e para tudo de igual natureza que o primeiro”.