A tradição mágica se opõe a todo um grupo de escolas, melhor chamadas místicas do que esotéricas, que tendem a resolver o individual num não-individual, seja uma infinidade indiferenciada como o nirguna-brahman vedantino, seja uma ordem ou harmonia transcendente.
-
A tradição mágica mantém, mesmo num sentido que nada tem a ver com o plano físico e pessoal, esse ponto do indivíduo, essa centralidade positiva subsistindo além de toda dissolução.
-
O mundo do espírito se revela não como o do reino da ordem idílica e da universalidade indiferenciada, mas como um conjunto de forças em estado livre, nuas, ebulientes, bem-aventuradas e terríveis ao mesmo tempo, num jogo de tensões ante o qual todas as lutas que os homens conhecem são apenas um pálido reflexo.
-
Nesse mundo, não dominar é ser dominado; vencer significa conservar a própria autonomia.
-
Na via lunar ou isíaca é preciso tornar-se o instrumento obediente das entidades superiores; na via mágica, solar, amoniana, é preciso ao contrário conservar a integridade do ser diante delas, o que só é possível vencendo-as e arrancando-lhes o quantum de fatum que portam.
Mithra resiste, fixa o grande deus, não mais reza mas comanda, e eis que o outro cede e lhe pede investidura e amizade: nesse cume se conclui a primeira grande fase da iniciação, tendo-se criado um ser mais forte que a natureza, mais forte que os deuses, além do estado de nascimento e morte.
A segunda fase da iniciação mithriaca encontra sua correlação no sacrifício do touro, e a tarefa é confirmar o apogeu solar e real, realizado extracorporalmente, sobre o corpo, sobre a pedra sombria abandonada durante toda essa fase.
-
É com a potência selvagem e indomada da vida, simbolizada pelo touro, que Mithra deve agora entrar em contato para subjugá-la.
-
Os métodos utilizados para isso vão da assunção exclusiva do fogo por concentração mental à exploração adequada de traumas psíquicos, da sofrimento à excitação sexual; as escolas indianas se apoiam sobretudo em técnicas de respiração, presentes também na teurgia mithriaca, segundo o ritual publicado por Dieterich; porém trata-se de práticas infrutíferas ou extremamente perigosas para quem não está suficientemente familiarizado com as experiências precedentes.
Mithra espreita o touro, salta sobre ele abruptamente e o monta, segurando-se pelos chifres; o quadrúpede galopa em corrida furiosa, mas Mithra não larga e se deixa transportar suspenso aos chifres do animal que, rapidamente exausto, acaba por se deixar capturar na caverna que havia abandonado; o deus o mantém imóvel e, em nome do Sol, o extermina com um golpe de punhal.
-
O touro representa a força elementar da vida, identificando-se ao Dragão Verde alquímico, à kundalini tântrica, ao Dragão taoísta; em relação com as práticas respiratórias, é o prana em seu aspecto sutil e luminoso.
-
O sopro tem quatro aspectos segundo as ciências iniciáticas: um material ligado ao estado de vigília, um sutil luminoso ligado ao estado de sonho, um ígneo ligado ao estado de sono profundo, e um quarto, o turiya, muito particular, que se manifesta sob forma de estado cataléptico ou de morte aparente, ligado ao sistema ósseo e à função geradora.
-
Mithra que, após ter apreendido o touro, se deixa transportar sem largar a presa, simboliza o Si mesmo que atravessa esses estágios e ultrapassa os pontos neutros que os separam, a partir do primeiro dos quais o homem comum perde a consciência no sono.
Quando a raiz da vida animal pode ser apreendida, detida, o mercúrio fixado e congelado, realiza-se a imolação do touro: por esse último gesto, essa raiz é privada de todo suporte, suspensa, quebrada e queimada, e então se opera uma transformação miraculosa.
-
Uma vida flamejante, divina e vertiginosa jorra das profundezas, invade o corpo inteiro e o transfigura, recriando-o ab imo numa entidade de atividade pura, numa glória, numa esplendor imortal: o augoeides, o hvareno, o vajra, o Do-rje, nomes diferentes das diferentes tradições do Oriente e do Ocidente para uma única coisa, a natureza feita de diamante e de raios irresistíveis.
-
Do ferimento do touro não escorre sangue, mas trigo, pão de vida e fonte perene que cobre o deserto ao redor com uma nova vegetação.
Bestas imundas se precipitam sobre o touro moribundo para beber seu sangue e morder seus genitais, envenenando a fonte de vida: isso significa que a força prodigiosa e sobre-humana, a kundalini, despertada no momento da imolação, inunda todos os princípios e funções que regem o ser corporal.
-
Quando o processo se cumpre sem que esses elementos tenham sido purificados, organizados e dominados na unidade, eles se desencadeiam e absorvem e transformam em seu proveito a força superior que deveria transformá-los em corpo espiritual.
-
Produz-se então uma recaída terrível, um desencadeamento, uma tempestade indomável das forças da vida animal e emotiva levadas ao paroxismo: o obscurecimento do céu, a tempestade, o dilúvio que, nos textos alquimistas e taoístas, podem ocorrer após beber o leite de Virgem ou sangue do Dragão.
-
Essa experiência é a última prova; mas além dela, o céu se abre novamente e o milagre continua: os últimos obstáculos sombrios são engolidos na maré de luz e de som que sobe vertiginosa, despertando o que dorme obscurecido e envolto sob a aparência dos órgãos corporais, em gestos, em fulgurações de potência, em iluminações cósmicas.
A ascese do homem-deus nas esferas celestes, na hierarquia dos sete planetas, faz empalidecer toda a exterioridade das coisas da natureza, extenuando-a, tornando-a interiormente luminosa e por fim queimando-a.
-
Tudo se anima, tudo se desperta e renasce do interior, fazendo-se símbolo, significação, luz, espírito de um corpo imenso, eterno e vertiginoso, numa plenitude que se dá a si mesma e transborda em exultação.
-
Além da sétima esfera, o arrebatamento: onde não há mais nem um aqui nem um não-aqui, que é calma e iluminação e solidão como num oceano infinito; é o grau de Pai, acima do de Águia, o cume e o substrato do mundo vertiginoso, desencadeado e flamejante da potência.
A sabedoria mithriaca, que disputou ao cristianismo a herança do Ocidente romano, representa a via e a possibilidade do homem segundo essa sabedoria.
-
Repelida e precipitada sobre o plano mais exterior, a eficácia da sabedoria dos mistérios se conservou numa tradição oculta que, por sua influência sutil e invisível, agiu sobre as grandes correntes históricas do Ocidente.
-
Hoje, além do mundo que a ciência libertou e que a filosofia interiorizou, ela ressurge em esforços ainda confusos, em seres quebrados por uma verdade que, forte demais para eles, será assumida e afirmada por outros: ressurge em Nietzsche, em Weininger, em Braum, nos limites do último idealismo, no desejo de infinito, no único valor: uma vida solar e real, uma vida de luz, de liberdade e de potência.