Kerényi associa o intelecto olímpico à ἀλήθεια como não-ocultamento e o espírito titânico ao amor pelo tortuoso e pela mentira, mostrando que, após os artifícios de Prometeu e seu castigo, resta a humanidade representada por Epimeteu, cuja imprudência aceita Pandora, enquanto Zeus ri sabendo que os homens amarão sua própria desgraça.
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Prometeu e Epimeteu são irmãos e expressam duplicidade primordial.
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O roubo do fogo e o sacrifício falho aumentam a miséria humana.
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Pandora inaugura fonte inesgotável de sofrimento.
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O riso olímpico, longe de destruir o homem, aniquila a pretensa importância trágica da miséria titânica, transformando a existência humana em comédia eterna diante de Zeus.
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Mesmo quando a dimensão heroica confere grandeza épica às lutas humanas, como em Homero, a perspectiva do estado primordial permanece imperturbável, pois o νοῦς olímpico não é movido pela tragédia, e a importância heroica subsiste apenas como espetáculo para os deuses, conforme também assinala Sêneca.
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A natureza participa por prodígios para magnificar a tragédia.
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A ilusão heroica desfaz-se diante do riso divino.
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O riso exprime plenitude das formas eternas.
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Nietzsche reconhece nessa concepção a profundidade da alma clássica, embora ele próprio permaneça vinculado em parte à ilusão titânica.
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O mito, enquanto espelho de experiências profundas que moldam civilizações, indica a possibilidade de orientação oposta à prometeica, apontando para alternativa de sentido que o humanismo tende a obscurecer.
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A orientação ‘olímpica’ permanece princípio sempre possível de atitude existencial, traduzindo-se em modo de ser diante do mundo humano, espiritual, histórico e interior, independentemente da linguagem simbólica antiga.
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Essa orientação constitui núcleo de tudo o que é autenticamente aristocrático, ao passo que o prometeísmo possui caráter plebeu e usurpador, sendo que no mundo indo-europeu as divindades da soberania tinham caráter olímpico, enquanto a linha prometeica associa-se historicamente ao ataque às autoridades superiores e à exaltação das camadas inferiores correspondentes ao elemento meramente humano.
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Imperium, ordem e direito vinculam-se ao polo olímpico.
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A inversão valoriza o estrato físico e inferior.
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Entre a liberdade do soberano e a liberdade do rebelde, o humanismo opta pela segunda, mesmo quando fala em dignidade, liberdade de pensamento e ilimitada expansão do espírito.
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Mesmo admitindo a imagem ideológica de hierarquias fundadas apenas na força, a identificação revolucionária dirige-se não aos supostos déspotas livres, mas aos estratos inferiores, revelando aspiração à liberdade do escravo emancipado e evidenciando a base plebeia do prometeísmo social.
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No domínio cultural, a emancipação do pensamento conduz ao racionalismo, ao progressismo e à glorificação do espírito inventivo do Titã inquieto, nutrindo a ilusão das ‘conquistas do pensamento’ aplicado.
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Esse movimento ascendente a partir de baixo dissolve o polo apolíneo da aristocracia do espírito, ligado à soberania de quem se sente afastado do meramente humano e orientado pela ‘civilização do ser’ e pela potência calma de um mundo superior.
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Sob desenvolvimentos acelerados, o humanismo percorre o caminho de Prometeu a Epimeteu, desconhecendo o Prometeu libertado por Héracles que simboliza a aliança heroica com os poderes olímpicos, e culminando na humanidade epimeteica submetida à economia e ao trabalho, proclamados como ‘humanismo integral’ e sentido da história.
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A libertação positiva é substituída por abandono à própria miséria.
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A grandeza trágica degenera em existência opaca.
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Fecha-se o ciclo iniciado pela exaltação prometeica.