A partir da dualidade fundamental entre os princípios Sol (atividade, fixidez) e Lua (passividade, fluidez), introduz-se um terceiro elemento, a Cruz, que representa o ponto de encontro e de tensão entre essas duas forças opostas.
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A direção descendente das águas lunares (▼) e a direção ascendente do fogo solar (▲) podem ser esquematizadas, respectivamente, pelo traço horizontal (─) e pelo traço vertical (│).
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O encontro e o entrecruzamento desses dois traços, o horizontal e o vertical, forma a Cruz (+), que é o “terceiro” elemento que surge da interação dos “dois”.
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Este ponto de intersecção, a Cruz, pode ter um duplo significado: o de ponto de queda e neutralização das forças, ou o de síntese ativa e criativa das mesmas, unidas como macho e fêmea.
No primeiro sentido, a Cruz representa o estado de petrificação, parada e estagnação, definindo o termo hermético “fixo” em sua acepção negativa.
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Este é o estado do elemento “corpo” em sentido lato, onde o poder do Ouro (princípio solar) está presente, mas detido e neutralizado pela ação do princípio oposto que sobre ele atuou.
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É o aspecto negativo da individuação, enraizado em um estado de oposição entre “dois inimigos”, como dois dragões que se devoram mutuamente ou a águia que luta com a serpente.
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Este significado encontra sua expressão no ideograma da Sal (Θ), que é a “matéria prima” (O) qualificada pela estagnação imposta pelo traço horizontal, representando a corporeidade como um mundo onde precipitam os “cadáveres” de lutas invisíveis.
Nesta acepção, o corpo é visto como um sepulcro ou uma prisão, a rocha à qual Prometeu é acorrentado para expiar o fracasso de sua audácia titânica.
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O corpo, como produto da oposição e neutralização dos dois princípios, é a consequência do ato de individuação primordial que fez violência à “deusa” (a força universal).
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Ele é a “Sal” que solidifica e aprisiona as energias vivas em uma forma estável, porém morta e inerte.
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A Cruz, neste contexto, é o símbolo da crucificação do espírito na matéria, da prisão do poder solar no corpo.
No segundo sentido, a Cruz aponta para a Tríade metafísica fundamental: os dois princípios (Sol e Lua) e o terceiro elemento (a Sal ou o corpo) que deles procede, formando a base da tríade Sol, Lua e Terra.
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Esta tríade, sub specie interioritatis, corresponde a três condições do espírito: a pura virilidade espiritual, as forças plasmadoras do devir e o mundo dos corpos.
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O simbolismo trinitário é recorrente no hermetismo, manifestando-se em imagens como as três serpentes coroadas, as três serpentes que surgem de uma copa ou a própria figura de Hermes Trismegisto, com sua tripla dignidade.
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A Sal, em sua acepção mais ampla, expressa o estado de corporeidade como resultado do conflito e da interferência entre os poderes solar e lunar.