METAFÍSICA DO SEXO

EVOLA, Julius. Metafisica del Sesso. 4., korrig., um e. Anhang erg. Aufl ed. Rom: Edizioni Mediterranee, 2009.

O título do presente livro requer uma precisão no que diz respeito ao termo «metafísica». Esta palavra será empregada aqui em dois sentidos. O primeiro é bastante corrente em filosofia, onde por «metafísica» se entende a busca dos princípios e dos significados últimos. Uma metafísica do sexo será portanto o estudo do que, de um ponto de vista absoluto, significam, já os sexos, já as relações baseadas nos sexos. Este tipo de estudo tem escassos antecedentes. Após ter citado Platão, e se prescindirmos de algumas alusões que se encontram em autores mais ou menos contemporâneos do Renascimento, desde as teorias de Boehme e de certos místicos heterodoxos inspirados na sua obra, até Franz von Baader, chega-se em seguida a Schopenhauer, e logo já não se pode mencionar mais que a Weininger e em certa medida a Carpenter, Berdiaiev e Klages. Na época moderna, e mais ainda nos nossos dias, os enfoques do problema dos sexos têm se multiplicado endemicamente do ponto de vista antropológico, biológico, sociológico, eugênico e, o último a chegar, psicoanalítico. Inclusive se tem cunhado um termo para denominar este tipo de estudos, a «sexologia». Mas tudo isso tem pouco ou nada a ver com uma metafísica do sexo. Aqui, como em todos os demais âmbitos, o estudo dos significados últimos não tem interessado os nossos contemporâneos, ou bem lhes pareceu incoerente e superado. Se tem crido alcançar algo mais importante e mais sério mantendo-se, pelo contrário, no plano empírico e mais estritamente humano; isso, quando não se tem concentrado a atenção diretamente nos subprodutos patológicos do sexo.

Isto vale também, em grande medida, para os autores de ontem e de hoje que têm tratado do amor mais que especificamente do sexo. Limitaram-se essencialmente ao plano psicológico e a uma análise genérica dos sentimentos. Inclusive o que publicaram a respeito alguns autores como Stendhal, Bourget, Balzac, Soloviev ou Lawrence concerne bem pouco aos significados mais profundos do sexo. De resto, a referência ao «amor» - dado o que em nossos dias se entende geralmente por este termo, e também por causa da defasagem de tipo sobretudo sentimental e romântico que a experiência sofreu na maioria das pessoas - não podia deixar de criar um equívoco, nem deixar de restringir a busca a um marco limitado e mais bem banal. Só aqui e ali, e quase se diria que por casualidade, alguém se aproximou do que tem a ver com a dimensão profunda, ou dimensão metafísica, do amor, em sua relação com o sexo.

Mas neste estudo a palavra «metafísica» se entenderá igualmente em outro sentido, que não carece de relação com sua etimologia, já que a «metafísica» designa em sentido literal a ciência do que vai além do físico. Este «além do plano físico», entretanto, não remeterá a conceitos abstratos ou a ideias filosóficas, mas ao que como possibilidade de experiência não só física, como experiência transpsicológica e transfisiológica, resulta de uma doutrina dos estados múltiplos do ser, de uma antropologia que não se detém, como a dos tempos mais recentes, no simples binômio alma-corpo, e que conhece em troca modalidades «sutis» e inclusive transcendentes da consciência humana. Este tipo de conhecimento, terreno desconhecido para a maioria de nossos contemporâneos, faz parte integrante das antigas disciplinas e tradições dos povos mais diversos.

Dele se obterá, pois, pontos de referência para uma metafísica do sexo entendida no segundo sentido da expressão: para delimitar tudo aquilo que, na experiência do sexo e do amor, conduz a uma mudança de nível da consciência corrente, «física», e às vezes inclusive a certa superação dos condicionamentos do eu individual e ao afloramento ou inserção momentânea, na consciência, de modos de ser de caráter profundo.

Que em toda experiência intensa do eros se estabelece um ritmo distinto, que há uma corrente distinta que impregna e que transporta, ou que suspende, as faculdades correntes do indivíduo humano, que se produzem aberturas a um mundo distinto, tudo isso é algo que se tem sabido ou pressentido desde sempre. Mas naqueles que são os sujeitos dessa experiência falta quase sempre uma sensibilidade sutil suficientemente desenvolvida para poder captar algo mais que as emoções e sensações que os assaltam; não têm nenhuma base para se orientar quando se produzem as mudanças de nível de que se falou.

Por outro lado, para os que convertem a experiência sexual em estudo científico, referindo-se para isso a outros e não a eles mesmos, as coisas não se apresentam mais favoravelmente no que se refere a uma metafísica do sexo compreendida nesse segundo sentido particular. As ciências que estão em condições de proporcionar referências adequadas para explorar essas dimensões potenciais da experiência do eros se perderam quase por completo. Por isso faltaram os conhecimentos necessários para definir, em termos de realidade, os conteúdos possíveis do que habitualmente se vive de maneira «irrealista» ao reduzir o não humano à exaltação de certas formas puramente humanas como a paixão e o sentimento: simples poesia, lirismo, romantismo idealizante e pieguice de todas as coisas.

Estas observações se referem ao campo erótico que se pode chamar de profano, que é praticamente o único que conhecem o homem e a mulher do Ocidente moderno, e também o único que têm em consideração os psicólogos e os sexólogos de nossos dias. Quando se indicar os significados mais profundos que se escondem no amor em geral e inclusive no ato cru que o expressa e o realiza - esse ato em que «se forma um ser múltiplo e monstruoso», em que se diria que homem e mulher «buscam humilhar, sacrificar tudo quanto há neles de formoso», em palavras de Barbusse -, talvez a maioria dos leitores não se reconheçam em tudo isso e pensem que não se trata mais que de interpretações completamente pessoais, imaginárias e arbitrárias, abstrusas e «herméticas».

As coisas só terão esta aparência para os que considerarem absoluto o que por via de regra observam em nossos dias à sua volta, ou bem o que experimentam eles mesmos. O mundo do eros, entretanto, não começou em nossa época, e não há mais que se referir à história, à etnologia, à história das religiões, à sabedoria dos Mistérios, ao folclore e à mitologia para se dar conta de que há formas do eros e da experiência sexual em que se reconheceram e integraram umas possibilidades mais profundas, e em que se punham suficientemente de relevo uns significados de ordem transfisiológica e transpsicológica como os antes citados. Este tipo de referências, bem estabelecidas e unânimes nas tradições de civilizações entretanto muito distintas, permitirão rechaçar a ideia que pretende que a metafísica do sexo é um simples capricho. O que há que concluir é outra coisa: haverá que dizer mais bem que, como por atrofia, alguns aspectos do eros passaram a estado latente, se tornaram indiscerníveis na esmagadora maioria dos casos e que deles não ficam, no amor sexual corrente, mais que rastros e indícios. De modo que, para poder pô-los de relevo, faz falta uma integração, um processo análogo ao que nas matemáticas representa o passo da diferencial à integral. Com efeito, não é verossímil crer que nas formas antigas do eros, frequentemente sagradas ou iniciáticas, há algo inventado ou adicionado que não existia em absoluto na correspondente experiência amorosa; não é verossímil pensar que se fazia desta experiência um uso para o qual não se prestava de modo algum, nem sequer virtualmente e em princípio. Muito mais verossímil é que essa experiência, ao longo das épocas, em certo sentido foi se degradando, empobrecendo, obscurecendo ou perdendo profundidade na grande maioria de homens e mulheres pertencentes a um ciclo de civilização essencialmente orientado à materialidade. Se tem dito com muita razão que «o fato de que a humanidade faça o amor como o faz mais ou menos tudo, ou seja, estúpida e inconscientemente, não impede que o mistério siga conservando toda a sua dignidade». Carece de sentido, de resto, objetar que certas possibilidades e certos significados do eros não se têm observado mais que em casos excepcionais. São precisamente essas exceções de hoje (que ademais há que se referir ao que em outro tempo tinha um caráter claramente menos esporádico) as que proporcionam a chave para compreender o conteúdo potencial, profundo e inconsciente, inclusive do profano e do não excepcional. Ainda que no fundo só se refira às variedades de uma paixão de tipo profano e natural, tem razão Mauclair quando diz: «No amor se levam a cabo os gestos sem refletir, e seu mistério só é claro para uma ínfima minoria de seres… Na massa inumerável de seres de rosto humano há muito poucos homens: e de entre esta seleção há muito poucos que penetrem o significado do amor». Aqui, como em qualquer outro âmbito, o critério estatístico não tem nenhum valor. Pode-se deixá-lo para métodos triviais como o empregado por Kinsey em seus famosos informes sobre o «comportamento sexual do macho e da fêmea da espécie humana». Em um estudo como o nosso, é a exceção o que tem valor de «regra», no sentido superior do termo.

A partir daí, já se pode delimitar os âmbitos nos que se centrará o nosso estudo. O primeiro campo será o da experiência erótico-sexual em geral, ou seja, do amor profano tal como podem conhecê-lo também qualquer homem e qualquer mulher, e se buscará nele «indícios intersticiais» de algo que, virtualmente, leva além do simples fato físico e sentimental. O estudo pode arrancar de numerosas expressões constantes da linguagem dos amantes e de formas recorrentes de seu comportamento. Esta matéria, pois, nos é proporcionada pela vida de cada dia. Basta considerá-la com outra luz para que, do que parece mais estereotipado, mais trivial e vazio, se possa extrair certas indicações interessantes.

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