A verdade é exatamente o contrário.
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O homem tradicional tratou de descobrir na divindade mesma o segredo e a essência do sexo.
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Para ele, os sexos, antes de existir fisicamente, existiam como forças supraindividuais e como princípios transcendentais; antes de aparecer na “natureza” existiam na esfera do sagrado, do cósmico, do espiritual.
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E na múltipla variedade das figuras divinas diferenciadas em deuses e deusas, aquele homem tratou de captar precisamente a essência do eterno masculino e do eterno feminino, da qual a sexualização dos seres humanos não é mais que um reflexo e uma manifestação particular.
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Por isso há que adotar o ponto de vista inverso ao da história das religiões: em vez de ser a sexualidade humana o fundamento para captar o que de real e positivo há nas figuras divinas e mitológicas sexualmente diferenciadas, é precisamente o conteúdo destas figuras o que proporciona a chave da compreensão dos aspectos mais profundos e universais da sexualidade do homem e da mulher.
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Só estas figuras — criações de uma intuição clarividente e muitas vezes mesmo de formas de percepção suprassensível efetivas, individuais ou coletivas — são precisamente as que podem indicar-nos o sentido do que denominamos virilidade absoluta e feminilidade absoluta, nos seus aspectos fundamentais; e também são elas, por conseguinte, as que podem tornar-nos capazes de reconhecer e distinguir certas “constantes” objetivas nas formas derivadas e híbridas nas quais aparece a sexualidade nos indivíduos empíricos, conforme a modalidades que dependem das raças e também dos diversos tipos de civilização.
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Mais particularmente, do sacrum sexual e da mitologia do sexo poderão extrair-se as bases de uma caracterologia e uma psicologia do sexo verdadeiramente profundas.
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É esse o problema que vamos abordar, não podendo o nosso estudo deixá-lo de lado, ainda que a matéria a examinar pareça às vezes, para o leitor corrente, abstrusa e insólita.