Como consequência natural deste desenvolvimento, as teses do Shaktismo radical, que refletiam a antiga soberania e prioridade ontológica da deusa, foram subsequentemente articuladas.
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Isto levou à assimilação da metafísica Sankhya e à reavaliação da doutrina maya durante o mesmo período em que
Shankara a tinha formulado.
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Sankhya é um darshana baseado no dualismo.
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Como princípio hermenêutico, adota uma dualidade original, a de purusha e prakriti, correspondendo aos elementos masculino e feminino; espírito e natureza, e consciência e inconsciência.
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O primeiro é inalterável, o segundo é o princípio do movimento e do devir.
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Sankhya excluiu meticulosamente do primeiro elemento, purusha, tudo o que não é puro, impassível ou orientado para a ação.
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A criação deriva de uma conexão peculiar destes dois princípios e de uma ação originada por purusha (chamada “catálise” na química) e determinada apenas pela sua presença.
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A analogia mais próxima que me ocorre vem daquela doutrina aristotélica que explica o mundo e o seu devir em termos de movimento e do desejo despertado na matéria (hyle = prakriti) pelo nous, ou “motor imóvel”.
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Prakriti, como tal, é pensada como um equilíbrio de três poderes (os chamados gunas, que discutirei mais tarde).
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O reflexo de purusha em prakriti quebra este equilíbrio, e em virtude de uma ação impregnante causa movimento e, assim, o desdobramento de prakriti no mundo das formas e fenômenos, que é chamado samsara.
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Sankhya também contempla uma “condição decaída”, correspondendo a uma noção fundamental encontrada tanto na metafísica hindu como na budista, nomeadamente avidya, ou ignorância.
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Purusha identifica-se com o seu próprio reflexo em prakriti, o chamado Eu elemental (bhutatman), esquecendo assim que é “outro”, ou seja, o ser impassível cuja substância é pura luz, ou o “espectador”.