Plotino admite que o sábio possa ter por vezes movimentos involuntários e irrefletidos de medo, mas como se esses movimentos lhe fossem estranhos, possíveis apenas porque o espírito, nesse instante, estava alhures, e ele os aplacará como se aplacam as penas de uma criança, pela ameaça ou pelo raciocínio, sem cólera.
-
O sábio é aquele que age pela melhor parte de si mesmo; nele, é a inteligência que é ativa; não seria sábio se tivesse um demônio que colaborasse em sua ação.
-
A sofrimento poderá, no máximo, provocar a separação de uma parte do espírito ainda sujeita em sua humanidade a sofrer, mas não poderá abalar o princípio superior; a chama que está nele brilha como a luz da lanterna nos redemoinhos violentos dos ventos e na tempestade.
O princípio de uma autorresponsabilidade transcendental resulta claramente das máximas de
Plotino sobre a ação: tudo o que é, o homem superior assume, quer e justifica referindo-se ao princípio que está nele, sobrenatural e soberano.
-
Não há justificação exterior e intelectual da ação: a ação está imediatamente ligada à sua significação.
-
Apenas quando a alma toma como guia a razão pura e impassível que lhe pertence em próprio é que se deve dizer que o ímpeto depende de nós, é voluntário e é nossa obra.
-
Não se deve atribuir ao universo a produção do mal; a alma extraviada pela ignorância, abatida pela violência dos desejos, não permite que venham de nós ações, mas apenas paixões.
O verdadeiro despertar consiste em se levantar sem o corpo e não com ele; se levantar com o corpo é passar de um sono a outro e mudar de cama; despertar verdadeiramente é abandonar completamente os corpos.
-
A sensação é para uma alma adormecida; toda a parte da alma que se encontra no corpo está adormecida.
-
Sair do corpo e abandonar o mundo dos corpos não deve ser interpretado materialmente, em plano espacial: não se trata de uma alma que sai de um corpo morto, mas da reintegração total da natureza intelectual privada de sono.
-
Essa é a verdadeira realização iniciática e metafísica, em relação com o ideal mais alto da humanidade clássica.
Plotino assimila com singular eficácia o fato de deixar os corpos a mudar de cama, estigmatizando assim a doutrina da reencarnação.
-
No ciclo dos nascimentos, cada forma de existência condicionada é, de um ponto de vista absoluto, equivalente a outra, assim como em um círculo cada ponto é equidistante do centro.
-
A realização metafísica, coroamento de uma existência humana virilmente vivida e asceticamente fortalecida, é uma fratura na série dos estados condicionados: uma abertura sobre uma direção diferente, transcendente, perpendicular.
-
Não se chega a ela seguindo o rastro das coisas que se tornam, mas por uma via de introversão, de concentração interior extrema de todos os poderes e de todas as luzes, que torna propícia a iluminação super-racional e permite a integração metafísica do próprio eu, ou seja, a imortalização efetiva da personalidade.
No estado absoluto de autoconsciência, a aparência de exterioridade que as forças divinas podem ter em sua grandeza em relação aos limites da vida psíquica ordinária se dissipa, e essas forças aparecem como os poderes da própria alma glorificada.
-
Quem tem a visão penetrante vê o objeto nele mesmo; o possuído de um deus, de Phebo ou de alguma Musa, contempla seu deus em si mesmo assim que tem a força de ver o deus em si.
-
Não há então, exterior um ao outro, um ser que vê e um objeto que é visto; há contemplação do que está em si mesmo como sendo o próprio si mesmo.
-
Esse é o coroamento da evocação da espiritualidade viril em um dos maiores Mestres de Vida, algo vivo cujo valor não é nem de ontem nem de amanhã, mas de sempre.