Patrick Geay

GEAY, Patrick. Hermès trahi: impostures philosphiques et néo-spiritualisme d'après l'oeuvre de René Guénon. Paris: Ed. Dervy, 1996

Constatou-se, nesta segunda metade do século XX, um renascimento de interesse paradoxal, mas significativo, pelo pensamento religioso. Essa vontade de “tomar a seu encargo” o fenômeno religioso acompanhou-se, sob o impulso da psicanálise, da história das religiões, mas também das ciências, da literatura e da estética, da intenção de desnudar-lhe as estruturas profundas. Assim, toda uma hermenêutica pôde constituir-se progressivamente a partir de Freud e, sobretudo hoje, de Jung. O exemplo de Bachelard ou de Paul Ricœur ilustra perfeitamente essa busca de uma “ciência da interpretação” capaz de permitir ao homem moderno, apesar de seu positivismo recorrente, uma nova forma de comunicação com o Sagrado. Essa “nostalgia do ser” (F. Alquié) exprimiu-se através de várias tentativas de reatualização de um conhecimento de natureza anagógica e gnóstica. Geralmente, estas articularam-se, ao mesmo tempo, em torno de um suporte fundamental de pesquisa: o símbolo. No centro dessa empreitada, convém igualmente evocar o papel determinante desempenhado, desde os anos sessenta, pela corrente qualificada por Gilbert Durand de Novo Espírito Antropológico, cujo objetivo principal reside em um singular projeto de reconstrução da antiga Hermetica Ratio, isto é, do pensamento hermético.

Posto isto, considera-se agora útil, senão necessário, interrogar-se, de um lado, sobre a coerência interna dessas diferentes orientações filosóficas e, de outro, sobre sua capacidade de dar conta com precisão dos corpus religiosos, simbólicos e místicos que estudam. Em outras palavras, terá sido bem-sucedida a tentativa moderna de restaurar certa visão “espiritual” do mundo? Ou, ao contrário, não teria ela consumado ainda mais a ruptura com os referidos corpus? Em suma, Hermes, o intérprete (hermeneus) por excelência, não terá sido simplesmente traído?

Para responder ao problema aqui suscitado, parece indispensável proceder a uma confrontação rigorosa da hermenêutica simbólica contemporânea com os modos de pensamento teofânicos tradicionais, segundo os quais o mundo é essencialmente considerado como uma automanifestação do divino. Os trabalhos de Corbin, tendo em vista sua influência sobre o Novo Espírito Antropológico em particular, conduzirão à retomada da questão do estatuto preciso do imaginal, tal como se coloca no contexto de origem e, depois, uma vez “integrado”, entre os hermeneutas contemporâneos. Sua associação discutível, nos escritos de G. Durand e de muitos outros, com a noção de imaginaire parece ser a origem, como já havia assinalado o autor de Corpo espiritual e Terra celeste, de uma série de equívocos que se analisarão em detalhe.

Este ponto é tanto mais importante por poder conduzir a uma concepção metafísica da Imaginação, cuja dimensão capital ocupará lugar central no âmbito desta pesquisa. O objetivo é mostrar se esses dois conceitos pertencem ou não a registros especulativos muito diferentes, quando não estranhos entre si. Essa metafísica será abordada em particular através do célebre Mestre andaluz Ibn Arabi, em razão de sua excepcional envergadura e como formulador eminente dessa doutrina islâmica do imaginal.

Desde Corbin, numerosos estudos lhe foram consagrados e, utilizados com discernimento, permitirão uma abordagem frutífera de seus escritos. Pensamos nas pesquisas de W.C. Chittick, M. Chodkiewicz, mas também nas de M. Valsan e Ch.-A. Gilis, que, em torno da obra primordial de René Guénon, tornaram possível uma melhor compreensão, sobretudo sob seus aspectos mais interiores. Embora um pensamento metafísico da Imaginação pareça ignorado pelas religiões cristã e judaica, tentar-se-á estabelecer em que medida ele se harmoniza de fato, e especialmente, com os relatos visionários veiculados por estas últimas, quando não permite compreender-lhes o sentido e até a possibilidade mesma. Para tal, ao mesmo tempo que se fará referência, por exemplo, ao Apocalipse de João e às Patrologias latina, grega e oriental, apoiar-se-á também em certos livros do Antigo Testamento (Ezequiel) e na literatura intertestamentária (Henoc), bem como nas principais escolas místicas do Judaísmo. As pesquisas clássicas de G. Scholem e, mais recentemente, as de N. Séd, Moshe Idel e Charles Mopsik, oferecerão ocasião para apreender melhor o que poderia permitir distinguir a hermenêutica atual daquela dos “escritos da Merkabah” ou do Zohar. Dado o vínculo particular que une o Ocidente ao mundo semítico no plano religioso, privilegiar-se-ão, portanto, os três “elos” abraâmicos.

O objetivo fundamental deste trabalho será, consequentemente, determinar até que ponto os postulados hermenêuticos de nosso tempo são compatíveis, ou não, com as características intrínsecas do “objeto” que pretendem delimitar, isto é, mostrar em que medida, a partir desses postulados, uma ciência exata e adequada da interpretação realmente surgiu nos últimos trinta anos. A enorme dificuldade da fenomenologia religiosa contemporânea em fazer coincidir o sentido profundo do realismo metafísico tradicional com seus próprios resultados aparecerá, por fim, como uma das especificidades mais notáveis da modernidade.

No plano metodológico, e antes mesmo de empreender este trabalho, convém precisar seu caráter nitidamente crítico em relação a certas correntes filosóficas direta ou indiretamente responsáveis pelo estado atual da hermenêutica.

Com efeito, demasiadas vezes o filósofo pensa sua disciplina fora e além da história. Ora, pareceu-nos aqui desejável pôr em evidência, ao contrário, a existência de uma lógica interna ao devir do pensamento filosófico ocidental. De tal modo que cada sistema seria, de certa maneira, condicionado por aquele que o precede imediatamente, e isso por razões que podem escapar ao próprio teórico. Existiria, nesse sentido, um destino especulativo próprio da Europa, cuja cada sequência, embora historicamente individualizada, representaria apenas um momento necessário ao acabamento de um processo que, sem ser hegeliano, obedeceria a um plano não menos regulado e preestabelecido.

Assim, esse conceito-chave dos séculos XIX e XX, o inconsciente, poderia talvez dissimular outra forma de inconsciência, sinônima de ignorância: como condição de possibilidade do surgimento de todo pensamento que tenha por consequência o inverso intelectual das doutrinas místicas e metafísicas tradicionais. Foi o que E. Benz conseguiu assinalar em um estudo muito útil, ainda que por vezes discutível, mostrando em especial a influência da mística judaica sobre o idealismo alemão, sem contudo insistir o bastante, a nosso ver, na distância que os separa. Certamente, semelhante confrontação entre essas doutrinas e o racionalismo filosófico poderá parecer destituída de pertinência, dada sua heterogeneidade. Mas seria esquecer que a maioria das principais ideologias modernas se determinou a partir de temas que, ao menos em sua origem, pertenciam ao domínio religioso. Examinando-se mais de perto, percebe-se que as problemáticas de tipo teológico desempenharam papel fundamental em sua elaboração, mesmo que as soluções propostas se encontrem nos antípodas da ortodoxia judaica ou católica. As questões da alma, de Deus, do conhecimento, da escatologia, entre outras, permitiram, em perspectiva oposta, o aparecimento de todas as grandes teorias modernas desde a época de Descartes. É certo que o filósofo se julga livre para subscrever a qualquer dogma, mas, desde que interprete um mundo que a priori não é o seu, importa, em retorno, que esse mundo lhe diga se sua abordagem é aceitável e, sobretudo, se sua informação é suficientemente ampla.

Cumpre reconhecer, todavia, que uma ignorância e uma incompreensão quase completas, entre filósofos e psicólogos, daquilo que se deve chamar propriamente de esoterismo — o único capaz, entretanto, de permitir um esclarecimento profundo da religião — conduziram ou a uma intenção de destruir esta última, ou a uma vontade mais ou menos consciente de substituí-la; daí a urgente necessidade de pôr em questão algumas das grandes imposturas filosóficas que estruturam a cultura europeia moderna. Spinoza, Hegel, Marx e Freud contam talvez entre os representantes mais eminentes dessa dupla tendência, que constitui, na verdade, uma autêntica face oculta de seus sistemas.

Tendo em vista os temas aqui abordados, pretendeu-se acentuar apenas as correntes de ideias estreitamente implicadas na elaboração dessa nova hermenêutica. Assim, consagrou-se a primeira parte deste trabalho a uma abordagem crítica das obras de Freud, Jung, P. Ricœur, Bachelard e G. Durand, com a intenção de evidenciar as insuficiências e lacunas desses métodos contemporâneos de interpretação. Numa segunda parte, será necessário remontar à origem, a fim de saber como, desde os nominalistas, tais métodos puderam surgir. Detemo-nos, em seguida, no exemplo de Juan de la Cruz, para compreender melhor o sentido e as consequências de sua rejeição das “visões imaginais” no contexto histórico do iconoclasmo protestante. Depois, examinar-se-ão, com o mesmo propósito, as concepções cartesiana e kantiana da imagem, bem como a teoria hegeliana do símbolo. Ao termo dessa segunda parte, abordar-se-á o problema das relações entre a linguagem e a interpretação das estruturas significantes a partir das teorias linguísticas e semiológicas modernas, que se buscará confrontar com as doutrinas místicas da língua. A questão do enraizamento ontológico do símbolo conduzirá, enfim, na terceira parte, à determinação do que poderiam ser os fundamentos de uma metafísica da Imaginação, conforme designada anteriormente.

A função primordial do mundo imaginal, essa realidade existencial intermediária entre o mundo dos corpos e o mundo dos espíritos, revelar-se-á, em última instância, como a manifestação formal direta da esfera dos inteligíveis, enquanto lugar originário das ciências mais elevadas.

O ensinamento de R. Guénon determinou, em essência, a orientação hermenêutica deste trabalho. Outro objetivo, portanto, será mostrar em que medida a “luz intelectual” da qual foi portador permite compreender melhor o significado da história cultural do Ocidente moderno. Para compreender plenamente o alcance geral de seus escritos, é necessário considerar não apenas seu enraizamento tradicional, mas também uma vocação e uma inspiração dificilmente comparáveis. É sempre possível ignorar ou ocultar a natureza exata de sua função, mas, em todo caso, R. Guénon não pode objetivamente ser considerado nem como “autor”, nem, a fortiori, como construtor de sistema. Evidentemente, sua obra não diz tudo, não explica tudo e não é um fim em si mesma. Contudo, sua filiação akbariana, assim como as múltiplas heranças, frequentemente misteriosas, das quais foi depositário, fazem de seus comentários uma fonte insubstituível para a compreensão da “Unidade transcendente das Leis sagradas dadas por Deus ao homem” e, mais especialmente aqui, como se verá, da doutrina do imaginal.

Insistir sobre o caráter não individual de sua doutrina equivale, por conseguinte, a relegar sua pessoa a segundo plano. Por essa razão, apesar do subtítulo do presente livro, tratar-se-á antes de tudo de ideias, contanto que sejam fiéis a essa Ciência de Hermes hoje tão maltratada.