O mito de Hermes, como os demais velhos mitos de significação profunda, apresenta-se de início como um tecido de infantilidades, incoerências e absurdos, com o deus nascendo numa gruta do monte Cílene, no noroeste da Arcádia, filho da ninfa Maia visitada noturnamante por Zeus, e saindo do berço para maraudar os rebanhos de Apolo.
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Diante de uma caverna, encontra uma tartaruga, mata-a e, usando a carapaça, pele de boi, varetas de junco e intestinos de carneiro, inventa a lira.
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Conduz as cinquenta vacas de Apolo de ré, com galhos frondosos amarrados aos pés para apagar os rastros, e as encerra numa gruta à beira do Alfeu.
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Mata duas vacas, não para comer, mas por prazer sacrificial, e inventa o fogo girando uma haste de louro num pedaço de madeira mais mole.
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Ao amanhecer, volta ao berço no monte Cílene; Apolo, por seus dons de vidência, descobre o culpado, confirmado por um velho que vira passar a criança e as vacas.
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Hermes nega com descaramento e habilidade; Zeus, sem se deixar enganar, diverte-se e o condena à restituição.
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Reconciliado com Apolo, Hermes dá-lhe a lira em troca da copropriedade das vacas; Apolo oferece um chicote, uma varinha e revela onde se encontram as Trias, veneráveis feiticeiras detentoras da arte divinatória, que se serviam de pequenas pedras sagradas chamadas thriai, lançadas à maneira de sortes.