ADVENTO DA ARTE

A REVELAÇÃO PRIMITIVA

Se imaginarmos um homem realizando adequadamente essa adaptação em si mesmo e vivendo no mundo sensível como em seu elemento natural, sem qualquer fuga, sem qualquer impulso para sair dele, sem nenhum sorriso para um sonho, não estaremos mais lidando com um homem; um pensamento humano que conseguisse se colar sem falhas ao universo físico geraria um robô ou um zumbi. Além disso, é essa necessidade inquebrantável de evasão que constitui a base da arte. Pois a arte, como nossa ciência de origem empírica, nasceu no momento mesmo do pecado e da ocultação. Consiste no esforço que a alma humana faz para se libertar, empregando o dado sensível de acordo com as leis do mundo real. Pode ser definido como uma transformação momentânea do mundo da matéria opaca (ou mundo da necessidade) em um universo de liberdade.

Seu papel é tão primordial aqui na Terra quanto o da ciência e da religião. Não se pode prescindir dela, assim como não se pode prescindir da comida e da bebida diárias. Desde o primeiro momento após a falta inicial, Adão e Eva inauguraram a arte, pelo simples fato de que à matéria espacial na qual acabavam de cair opunham a lembrança do Éden, que desaparecera repentinamente. E não há um único dos seus descendentes que, depois deles, não tenha criado, e continue a criar, um mundo interior onde se liberta. É possível conceber um ser preso numa masmorra que nunca sonhe com um cosmos onde se pode mover sem obstáculos? Normalmente, reserva-se o nome de artistas àqueles que produzem obras que facilitam essa libertação nos outros. Mas a arte é, por essência, uma atitude do pensamento, atitude que se produz em todos os homens; e, mesmo no artista propriamente dito, é somente essa atitude que conta: é ela, de fato, que se procura alcançar através da obra; é ela que lhe dá seu fermento de beleza e constitui seu valor.