Se procurarmos explicar, de fato, as semelhanças que apresentam, no ponto em questão, a história e a etnologia, chegamos à conclusão de que a espécie humana sempre teve, desde o início, um guia: a saber, uma Tradição, que manteve vivas em nosso planeta, desde o início dos tempos humanos, as elevadas ideias correspondentes ao super-homem, objetivo e síntese da criação terrestre.
E o que constituiu o poder efetivo dessa Tradição, o que lhe permitiu conservar intactas, ao longo de milênios e milênios, as noções primordiais que ela guardava, foi o fato de ela não se contentar em transmitir verbalmente conceitos e crenças: ela os fixava em ritos; ela os incorporava a práticas cultuais, que asseguravam mais facilmente sua penetração e sobrevivência. A primeira organização que surgiu a esse respeito remonta, segundo a Bíblia, a Seth e Enos, filho e neto de Adão. Desde então, a cadeia não se interrompeu; a roda da memória e das iniciações girou sem parar, ao mesmo tempo que a das gerações humanas.
Sem dúvida, na maioria dos casos, os grupos sociais aos quais era comunicado o grande segredo o acomodavam de acordo com suas próprias visões e o desnaturaram ao integrá-lo em seus complexos mentais; ou ainda o diminuíam e distorciam, negligenciando detalhes essenciais, para se limitar a uma iniciação restrita e a uma liturgia particular; sem dúvida também enxertavam novos rituais nos rituais primitivos e, aos poucos, transpondo essas práticas em mitos, acabavam sobrecarregando, cobrindo e desfigurando as noções originais; de modo que, muitas vezes, essas noções parecem ter desaparecido totalmente. No entanto, com um esforço de atenção e colocando-se num ponto de vista adequado, é possível discerni-las. Percebe-se assim que a obra da Tradição não foi em vão. Ao vínculo ideal — ou vínculo de convergência — que agrega ontologicamente os homens em um único bloco, ela acrescentou um vínculo de fato — ou vínculo de difusão temporal — que constituiu o nó da civilização; transformou em uma unidade viva e concreta a unidade teórica de nossa espécie, estabelecendo entre as diferentes sociedades, e dentro de cada uma delas, esse rudimento de coesão espiritual que marcou o primeiro e mais importante passo para sair da barbárie.
Lord Raglan, ex-presidente da Seção de Antropologia da Associação Britânica para o Avanço das Ciências, que conhece de perto os não civilizados, escreve: Muitos indícios atestam que as leis das tribos australianas não são de sua autoria, mas que, há dois mil anos, talvez três mil, elas sofreram a influência, vigorosa embora passageira, de uma população de cultura bem superior. (O Tabu do Incesto, p. 71). Essa observação, que diz respeito aos povos mais atrasados, pode ser repetida a fortiori para os outros. Ela deixa claro qual foi a influência da Tradição civilizadora fundamental.