ISOLAMENTO DO EU HUMANO

A REVELAÇÃO PRIMITIVA

Parcialmente separado do Ser, o homem não consegue se unir a nenhum outro ser. A fissura causada pelo desnível original sempre o impede. Ele vive isolado em si mesmo. Cada um de nós forma um mundo à parte, um cosmos totalmente fechado, e só podemos compreender os outros substituindo o nosso cosmos pelo deles, ou seja, começando por confundir e falsificar tudo. Quaisquer que sejam os nossos esforços, não conseguiremos escapar de nós mesmos; a divisão original, inexoravelmente, interpõe-se. Os sentimentos e as ideias que atribuímos aos outros são nossos sentimentos e nossas ideias. Vivemos sozinhos; sofremos sozinhos; sozinhos, voltamos ao pó. Do início ao fim de nossa vida terrena, estamos encerrados em nós mesmos, como em um túmulo. É a morte que nos liberta. E esse implacável sepultamento de cada indivíduo em um túmulo cuja pedra ele não pode remover é, sem dúvida, para a humanidade, o resultado mais terrível da ocultação primitiva.

Essa solidão reforça, aliás, inevitavelmente o egoísmo. Pode-se até dizer que ela o constitui. O ser mais amoroso e mais rico de nós se ama através de nós mesmos, assim como nós nos amamos através dele. Não há pior irracionalidade, certamente, do que se tornar o centro, mas como escapar disso, uma vez que a mente se encontra reduzida a pastar sobre si mesma? Tornamo-nos o centro na medida em que somos incapazes de nos conectar com a existência, e os eus totalmente desprovidos de ser trazem o universo de volta totalmente para si mesmos.

Nosso pensamento, do fundo de seu abismo, não pode, em definitiva, vislumbrar nada além de formas superficiais e ilusões passageiras que, sendo um jogo de sensações — e sensações que são nossas sensações —, não demoram a desencantá-lo, supondo que consigam entretê-lo por um instante. Só nos seria acessível o super-homem, o homem verdadeiro, o homem em quem o homem foi recriado e que possui, à semelhança do ser humano primitivo, o poder de ultrapassar o seu pensamento e penetrar no coração dos seres. Somos permeáveis apenas a esse homem; somos acessíveis apenas a ele; somente ele pode nos tirar de nossa prisão, arrancar-nos da solidão e do egoísmo, reabrir-nos o mundo encantado onde a alma abraça outra coisa além de si mesma, onde é livre e acessa o amor. Somente ele, em uma palavra, nos entrega as chaves do ser. Mas não sabemos estender o braço para aproveitá-las. A porta de saída está no fundo de nós mesmos, na zona interior que confina com o esplendor. Desaprendemos o caminho.