TEOCRACIA ANTIGA, DIVULGADORA DE INICIAÇÕES E MISTÉRIOS

A REVELAÇÃO PRIMITIVA

Quando, além disso, refletimos sobre essas indicações, percebemos que três coisas estão estreitamente ligadas: 1º) um estado espiritual e intelectual primordial (estado edênico ou estado de iluminação sobrenatural), que foi encoberto pela ocultação, e que o homem precisa reencontrar; 2º) uma tradição primordial relativa a esse estado — tradição que revela a sua realidade e guia o pensamento humano em sua direção; 3º) um grupo humano que conserva intacta essa tradição e se esforça para divulgá-la através do ritual iniciático.

Foi somente entre os povos de pastoreio nômade que a tradição primordial conseguiu manter-se, senão completa, pelo menos pura. É, portanto, apenas entre esses povos que o estado primordial pôde ser verdadeiramente discernido e que o esforço civilizador pôde ocorrer 1); a civilização, com efeito, tem como fundamento essencial a necessidade de reencontrar o estado inicial, e pode ser definida, quando considerada em sua essência, como o retorno ao Éden. O início da jornada da humanidade no espaço e no tempo não foi senão um caminhar em direção ao jardim perdido; desde o primeiro segundo da marcha, o homem teve apenas um objetivo: subir a encosta que acabara de descer: reganhar o topo da montanha, ao pé da qual acabara de escorregar; reencontrar, nos cumes, a luz que acabara de se velar. Somente certos elementos da cultura pastoril, contudo, conseguiram manter esse objetivo distintamente diante dos olhos dos homens.

O grupo superior que, neste ciclo, assumiu a salvaguarda da tradição civilizadora foi a organização teocrática, à qual a antiguidade chamou de deuses, e que a Bíblia menciona sob o nome de Filhos de Deus. Este grupo também recebe, por outro lado, o mesmo nome do universo radiante cuja ideia perpetua: Agarttha é a sua designação mais recente. Anteriormente, era o Paradesha (Região Suprema), palavra idêntica ao Pardes caldeu e ao Paraíso. Mais antigamente ainda, era Tula, de onde os Gregos fizeram Thulé. Esta Tula, indica René Guénon 2), “era verossimilmente idêntica à primeira Ilha dos Quatro Mestres. É necessário observar, aliás, que o mesmo nome de Tula foi dado a regiões muito diversas, já que, ainda hoje, o encontramos tanto na Rússia como na América Central; sem dúvida deve-se pensar que cada uma dessas regiões foi, numa época mais ou menos remota, a sede de um poder espiritual que era como uma emanação daquele da Tula primordial. Sabe-se que a Tula mexicana deve seu nome aos Toltecas; estes, diz-se, vinham de Aztlan, a Terra no meio das águas, que, evidentemente, não é outra senão a Atlântida, e tinham trazido esse nome de Tula de seu país de origem; o centro ao qual o deram provavelmente substituiu, em certa medida, aquele de onde haviam partido. Mas, por outro lado, é preciso distinguir a Tula atlante da Tula hiperbórea” 3). Esta última foi a ilha sagrada por excelência, o primeiro foco religioso, do qual todas as outras ilhas santas foram cópias ou imagens.

A própria palavra, tula, significa em sânscrito balança 4), e designou também, mais tarde, o signo zodiacal com este nome. Se nos lembramos de que a Ursa Maior e a Ursa Menor são assimiladas por alguns povos aos dois pratos de uma balança, e, sobretudo, que, para os Chineses, a Ursa Maior é a Balança de jade, a denominação de Tula ganha todo o seu sentido: a ilha sagrada é o polo da Terra, assim como a Ursa Maior é o polo do mundo. Guénon considera, além disso, como provável 5) que a primeira Tüla, a hiperbórea, tivesse uma situação literalmente polar, numa época em que a temperatura do polo não era o que é presentemente.

Seja qual for o lugar onde a localizemos, tal é a organização que conservou o que o Oriente denomina a ciência de Set; é ela que, após a derrocada diluviana, se estabeleceu nos Montes Ararat e se tornou o grupo dos Noaquidas. É a ela que se liga a tradição hebraica, é graças a ela que Moisés pôde escrever os primeiros capítulos do Gênesis. É a ela também, como mostra o episódio dos Reis Magos, que se conecta o cristianismo.

Ela se revela, aliás, tão inapreensível quanto o “mundo subterrâneo”, ou “mundo da ocultação”, cuja ideia e disciplinas ela manteve. Mencionamos em diversas ocasiões algumas das denominações que lhe são atribuídas: as mais essenciais referem-se a três elementos — uma montanha, uma ilha, uma luz no topo da montanha — e a três cores: o verde, o branco e o vermelho (que são, com o preto e o amarelo, as cores iniciáticas fundamentais) 6).

Insistimos em diversas ocasiões sobre esta identidade da teocracia antiga com aqueles que toda a antiguidade conheceu sob a denominação de deuses, e que, segundo a unanimidade das tradições, governaram a terra antes que o poder caísse nas mãos dos “homens” (esta evolução assinala a transformação progressiva da sociedade, primitivamente religiosa, em sociedade civil). Os deuses foram, em seu princípio, homens de carne e osso, que eram realçados por uma titulatura divina, e que se revestiam de peles (mais tarde de máscaras) ou de folhagens sacralizantes. O pior erro da mitologia é imaginar que, desde o início, os deuses foram seres de sonho, moldados pela imaginação 7).

1)
Ver a obra mencionada na nota anterior.
2)
O Rei do Mundo, pp. 114-115.
3)
Explicamo-nos sobre a Atlântida em nossa obra O que foi o Dilúvio.
4)
Esta etimologia nos parece de longe preferível à de Sol ou Ilha do Sol: Thulé, segundo alguns, seria, com efeito, uma contração de duas palavras gregas Theos (deus), Helios (sol).
5)
Loc. cit. p. 115.
6)
Ver sobre estas questões nossa obra A Imagem do Mundo na Antiguidade.
7)
Ver a este respeito nossa obra Nova Mitologia.