A concepção espírita da constituição do ser humano, embora ternária (espírito, perispírito e corpo), é criticada por sua inadequação à realidade, especialmente quando comparada às concepções dualistas dos modernos e às mais complexas dos antigos e orientais, das quais os ocultistas e espiritistas fizeram uma transposição materialista.
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A crítica à teoria dualista moderna (corpo e alma/espírito) implantada desde Descartes, que torna inexplicável a união dos dois elementos por sua oposição de natureza.
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A referência às concepções antigas e medievais que distinguiam três elementos no homem (corpo, alma como princípio vital, e espírito como ser verdadeiro e permanente), das quais os ocultistas tentaram uma renovação mal compreendida.
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A identificação do neoespiritualismo (incluindo o espiritismo) como um materialismo alargado, cujas teorias se assemelham ao vitalismo e sofrem da mesma objeção fundamental: ou se admite a falta de contato entre espírito e corpo (tornando um intermediário impossível) ou se admite uma afinidade (tornando o intermediário inútil).
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A ressalva de que essa objeção não atinge as concepções tradicionais, anteriores ao dualismo cartesiano, que veem o homem como um ser complexo para corresponder à realidade, e não para resolver um problema artificial.
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A concepção espírita, embora ternária, é considerada não apenas inexata quanto à constituição do homem vivo, mas inteiramente falsa quanto ao seu estado após a morte, pois supõe que nada muda para o espírito além da perda do corpo físico, mantendo-se unido ao perispírito e permanecendo idêntico ao que era em vida.
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A conclusão de que a superioridade aparente da concepção ternária espírita sobre a dualista é ilusória, devido à maneira como o elemento intermediário é concebido.
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A necessidade dessa concepção para que se possa admitir a comunicação entre vivos e mortos por meios materiais, sendo a persistência do perispírito a condição para tal.
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A incompreensão, dentro da própria hipótese espírita, da necessidade indispensável do médium, já que o espírito possuiria seu próprio perispírito para agir.
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A constatação de que os espíritas fazem do papel do médium um dos pontos fundamentais de sua doutrina.
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A crítica à interpretação espírita das faculdades mediúnicas não contesta a realidade dessas faculdades, mas sim a explicação que lhes é dada, particularmente a função do perispírito e a relação deste com a força neurica ou outra força vital presente no médium, cuja existência parece tornar o perispírito uma hipótese gratuita.
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A distinção entre a realidade das faculdades ditas mediúnicas e a interpretação que delas dão os espíritas, usando-se o termo mediunidade apenas por comodidade.
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A incompreensão, do ponto de vista espírita, do papel atribuído ao médium fora de certos casos particulares, como a necessidade de órgãos para falar.
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A discussão sobre a natureza da força (neurica, ódica, ectênica) que o médium emprestaria ao espírito, e a dificuldade de integrá-la coerentemente com a existência do perispírito.
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A conclusão de que, se a força neurica basta para explicar os fenômenos, a existência do perispírito torna-se uma hipótese gratuita, o que torna duvidosa a intervenção dos mortos, já que os fenômenos poderiam ser explicados por propriedades do ser vivo.
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A expressão comunicar com os mortos é ambígua, e para os espíritas ela significa comunicar com o indivíduo humano que sobreviveu exatamente como era em vida, despido apenas do corpo visível, o que constitui uma pretensão muito nova e especificamente moderna, que ignora a complexidade real do ser humano e as concepções antigas sobre o assunto.
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A definição espírita do ente com quem se comunica como o espírito do morto, que permaneceu idêntico ao que era durante sua vida terrestre após a desencarnação.
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A afirmação de que essa simplicidade aparente da resposta espírita não é satisfatória, havendo uma correlação entre a questão da comunicação e a da complexa constituição do ser humano.
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A caracterização da pretensão de comunicar com os mortos nesse sentido como algo muito novo e especificamente moderno, diferente do que se entendia antigamente por essa mesma expressão.
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A promessa de explicação futura para essa afirmação, cuja ignorância leva a tomar o espiritismo por algo que não é, ou seja, uma doutrina de invenção recente.