A ação antitradicional não é espontânea nem fortuita, pois toda ação efetiva exige agentes.
A concordância com a fase cíclica explica a possibilidade e o êxito, mas não explica os meios empregados.
Sendo uma ação no domínio humano, implica necessariamente agentes humanos.
Se as influências espirituais atuam por intermediários humanos nas tradições, com mais razão as influências psíquicas inferiores exigem tais intermediários.
O caráter de “contrafação” desse domínio reforça a necessidade de agentes.
A oposição decisiva recai sobre a iniciação, pois ela encarna o espírito da tradição e a realização supra-humana.
O objetivo do processo é arrastar o homem ao “infra-humano”.
O termo adequado para designar o conjunto de agentes é “contra-iniciação”.
A “contra-iniciação” não é um rótulo arbitrário, mas expressão de realidades precisas.
Há graus na contra-iniciação, assim como há graus na iniciação.
O mundo moderno manifesta um caráter crescente de artificialidade, desnaturação e falsificação.
A crítica antimoderna frequentemente percebe o artificial, mas não o princípio subjacente.
Se tudo se torna artificial, a mentalidade correspondente também é “fabricada”, não espontânea.
A incapacidade de perceber isso mostra a força das “sugestões” constitutivas do mundo moderno.
Mesmo os antimodernos permanecem presos a tais sugestões e desperdiçam esforços.
A ação antitradicional visou simultaneamente mudar a mentalidade e destruir instituições tradicionais no Ocidente.
O Ocidente foi o primeiro campo direto de atuação.
A expansão mundial viria por meio de ocidentais preparados como instrumentos.
Mudada a mentalidade, instituições tradicionais tornam-se incongruentes e fáceis de destruir.
O trabalho fundamental é a desvio da mentalidade, do qual o restante depende.
O desvio da mentalidade exigiu etapas sucessivas, não podendo ocorrer de um golpe.
A rapidez do esquecimento ocidental do caráter tradicional do próprio passado é anormal.
A incompreensão dos séculos XVII e XVIII diante do medievo indica ruptura brusca e não espontânea.
A transformação exigiu uma “fabricação” metódica.
Primeira etapa: redução do indivíduo a si mesmo pela obra do racionalismo.
O racionalismo nega faculdades de ordem transcendente.
Sua ação antecede sua formulação explícita e já aparece no Protestantismo.
O humanismo da Renascença foi precursor direto do racionalismo.
“Humanismo” implica reduzir tudo ao humano e excluir o supraindividual.
Segunda etapa: orientação total da atenção para o exterior e o sensível, confinando ao corporal.
Esse confinamento é o ponto de partida da ciência moderna.
A ciência moderna é dirigida a tornar essa limitação cada vez mais efetiva.
A constituição teórica procede gradualmente.
O mecanicismo prepara a via ao materialismo.
Terceira etapa: materialismo e elaboração da noção de matéria conduzem ao “reino da quantidade”.
O materialismo reduz o horizonte mental ao corporal tomado como única realidade.
O corporal é depurado do que não pareça estritamente “material”.
A ciência profana, mecanicista desde Descartes, torna-se materialista a partir da segunda metade do século XVIII.
As teorias tornam-se cada vez mais quantitativas.
O materialismo difunde-se como “materialismo prático”, um instinto social.
As aplicações industriais reforçam o apego às realizações materiais.
O homem mecaniza o mundo e se mecaniza, tornando-se “unidade numérica” na massa indistinta.
A quantidade triunfa sobre a qualidade.
Paralelamente, inicia-se um segundo trabalho, aparentemente contrário, voltado à dissolução.
Esse trabalho começa desde o aparecimento do materialismo.
Não contraria a quantificação; prepara o momento em que ela mesma tende à dissolução.
Quando a solidificação atinge seu máximo, a redução do contínuo ao descontínuo torna-se tendência dissolvente.
O trabalho dissolvente, antes oculto e restrito, passa a manifestar-se publicamente.
A ciência quantitativa torna-se menos materialista e abandona a própria noção de matéria.
O estado atual é o da sobrevivência do materialismo, sobretudo como materialismo prático.
O materialismo deixa de ser o agente principal da ação antitradicional.
A fase decisiva atual consiste em reabrir o mundo por baixo, sem restituir comunicação com o superior.
O fechamento máximo do corporal foi obra da fase materialista.
O passo seguinte é abrir “fissuras” por onde entram forças dissolventes do sutil inferior.
Trata-se do “desencadeamento” dessas forças para conduzir à dissolução final.
Há duas fases distintas: solidificação/quantificação e dissolução.
Embora parcialmente simultâneas, elas se sucedem logicamente no “plano” da desvio moderna.
A primeira fase, uma vez constituído o materialismo, desenrola-se por implicação interna.
A segunda foi preparada desde então e apenas começa a produzir efeitos visíveis.
Esta segunda fase passa agora ao primeiro plano.
O agente diretivo é designado com maior precisão como “contra-iniciação”.