A pretensa religião “dinâmica” de Bergson, desprovida de dogmas, ritos e moral, esvazia-se em uma vaga “religiosidade” de aspiração confusa, semelhante à experiência religiosa de William James, e encontra sua mais alta expressão em um “misticismo” mal compreendido, valorizado por seu caráter individual e propenso à divagação, enquanto ignora a base do misticismo propriamente dito que é seu vínculo com uma religião “estática”.
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A religião “dinâmica” de Bergson não possui dogmas (por serem imutáveis), nem ritos (pelo mesmo motivo e por seu caráter social), e a moral é posta à parte, restando apenas uma vaga “religiosidade”, uma aspiração confusa para um “ideal”, próxima da dos modernistas e protestantes liberais e da “experiência religiosa” de William James.
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Bergson toma essa “religiosidade” por uma religião superior, crendo “sublimar” a religião quando na verdade a esvaziou de todo conteúdo positivo, pois é tudo o que uma teoria psicológica pode extrair do “sentimento religioso”, que não é a religião.
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Essa “religião dinâmica” encontra sua mais alta expressão no “misticismo”, compreendido por seu pior lado, o que há de individual, vago e “anárquico”, com exemplos em ensinamentos de inspiração ocultista e teosofista.
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O que agrada Bergson nos místicos é a tendência à “divagação”, e ele negligencia a base do misticismo propriamente dito, que é seu vínculo com uma “religião estática”, algo que o incomoda e que ele explica de forma embaraçada.
Em relação à religião “estática”, Bergson aceita acriticamente as explicações da escola sociológica sobre suas origens, atribuindo um papel central a uma pretensa “função fabuladora”, e, no que concerne à magia, embora a distinga da religião e a oponha à ciência, suas considerações invertem a verdade ao ignorar a realidade da magia como uma ciência particular e ao negar a priori sua eficácia com base em preconceitos modernos.
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Bergson aceita todas as narrativas da escola sociológica sobre as origens da religião “estática”, incluindo noções como “magia”, “totemismo” e “tabu”, e atribui a isso uma pretensa “função fabuladora”.
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Sobre a magia, Bergson lhe busca uma “origem psicológica”, definindo-a como a “exteriorização de um desejo”, e afirma que magia e religião se relacionam, mas que a magia não tem nada em comum com a ciência, sendo, ao contrário, o inverso da ciência e um obstáculo contra o qual o saber metódico teve que lutar.
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Essas afirmações invertem a verdade, pois a magia não tem relação com a religião e é uma ciência particular entre as outras, mas Bergson, convencido de que só existem as ciências enumeradas pelas classificações modernas, nega a priori a realidade das operações mágicas.
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Bergson afirma que, se a inteligência “primitiva” tivesse concebido princípios mágicos, a experiência lhes teria demonstrado a falsidade, negando a possibilidade de que a experiência pudesse confirmar a eficácia da magia, tamanha a força de suas ideias preconcebidas e a limitação do mundo à medida de suas concepções.
O intuicionismo bergsoniano revela sua conexão efetiva com a segunda fase da ação antitradicional ao aceitar como reais, sem reconhecê-los, os fenômenos mágicos em sua forma mais baixa, reemergentes através das “fissuras” do mundo moderno sob o disfarce da “ciência psíquica”, chegando a atribuir a essa “magia” disfarçada um papel capital para o futuro de sua “religião dinâmica” e a aderir à teoria espírita da sobrevivência, demonstrando completa falta de discernimento e servindo como “intermediário” inconsciente para iludir outros.
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A magia, reemergente na época atual através das recentes “fissuras” do mundo, em sua forma mais baixa e rudimentar sob o disfarce da “ciência psíquica” ou “metapsíquica”, consegue ser admitida por Bergson como real e como devendo desempenhar um papel capital para o futuro de sua “religião dinâmica”.
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Bergson fala de “sobrevivência” como um espírita, crendo em um “aprofundamento experimental” que permite concluir pela possibilidade e probabilidade da sobrevivência da alma, e proclama que a certeza absoluta da sobrevivência converteria a crença no além em realidade vivaz e agente.
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A interpretação que Bergson faz desses fenômenos elementares é pura e simplesmente a teoria espírita, que ele, como William James, acaba aceitando com uma “alegria” que faz “empalidecer todos os prazeres”, fixando o grau de discernimento de que é capaz.
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Os filósofos profanos, nesses casos, geralmente desempenham o papel de duplos e servem como “intermediários” inconscientes para enganar muitos outros, e essa aceitação da “superstição” espírita dá a justa medida do valor real de toda essa “filosofia nova”.