A contrafação psicanalítica se estende à denaturação do simbolismo e à assimilação de métodos de realização espiritual, como o Yoga, a procedimentos terapêuticos, o que é ainda mais perigoso que as deformações grosseiras, pois, sob aparências mais sutis, nega o objetivo espiritual do Yoga e o aplica a seres desequilibrados, para os quais seus métodos não são destinados, já que o Yoga exige, ao contrário, seres perfeitamente equilibrados e qualificados para o desenvolvimento espiritual.
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A impressão de “contrafação” é reforçada pela denaturação do simbolismo e pela atitude assumida em relação à religião e a doutrinas metafísicas e iniciáticas como o Yoga, que são assimiladas a procedimentos terapêuticos da psicanálise.
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Essa deformação sutil é mais perigosa que as deformações mais grosseiras, como a que vê no Yoga uma “cultura física” ou terapêutica fisiológica, pois estas, por sua grosseria, são menos capazes de seduzir certos espíritos.
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O objetivo puramente espiritual do Yoga é totalmente desconhecido nessa interpretação; o Yoga não é uma terapêutica psíquica nem corporal, e seus procedimentos não são um tratamento para doentes ou desequilibrados.
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Os métodos do Yoga dirigem-se exclusivamente a seres que, para realizar o desenvolvimento espiritual, devem ser já, por suas disposições naturais, tão perfeitamente equilibrados quanto possível, condições que se enquadram estritamente na questão das qualificações iniciáticas.
A necessidade imposta ao psicanalista de ser previamente “psicanalisado” revela uma imitação da transmissão iniciática, mas, em vez de um desenvolvimento espiritual, opera-se um desenvolvimento do psiquismo inferior que deixa uma marca inapagável, assemelhando-se antes a uma transmissão de caráter mágico ou de feitiçaria, cuja origem obscura, ao exigir que os primeiros psicanalistas tivessem sido “psicanalisados” por alguém, sugere uma “marca” sinistra que aproxima a psicanálise de certos “sacramentos do diabo”.
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A necessidade imposta a quem quer praticar a psicanálise de ser previamente “psicanalisado” implica o reconhecimento de que a operação deixa uma marca inapagável, como a iniciação, mas em sentido inverso, tratando-se de um desenvolvimento do psiquismo inferior.
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Há nisso uma imitação manifesta da transmissão iniciática, mas, pela diferença da natureza das influências, essa transmissão assemelha-se antes à que se pratica na magia ou na feitiçaria.
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A origem dessa transmissão é obscura: sendo a invenção da psicanálise recente, donde os primeiros psicanalistas tiraram os “poderes” que transmitem a seus discípulos, e por quem foram eles mesmos “psicanalisados” primeiramente?
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Essa questão, lógica mas indiscreta, provavelmente não terá resposta satisfatória, mas a semelhança da transmissão psíquica com certos “sacramentos do diabo” é uma “marca” verdadeiramente sinistra.