Esses alimentos de imortalidade são um dom do céu, como o soma trazido por uma águia da montanha polar, o haoma persa descido do monte Alborj, ou o trigo, a água e a vinha dados por Anu na Mesopotâmia, e, por serem dons, participam da natureza do doador, podendo inclusive ser identificados com o próprio doador, como ocorre com o soma, o haoma e o pão e o vinho mesopotâmicos, que se tornaram deuses.
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O soma é dom de Indra e Agni, descido da montanha polar.
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O haoma persa, análogo ao soma, desceu do monte Alborj para dar a vida bem-aventurada.
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O trigo, a água e a vinha mesopotâmicos são dons de Anu, deus do céu.
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O dom, por conter algo do doador, pode ser visto como contendo sua essência ou como tornando-se o próprio doador.
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O soma torna-se um deus princípio de vida e luz, assim como o haoma e o pão e o vinho na Mesopotâmia.
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Essa identificação não é uma personificação ou divinização do objeto material, mas um processo de pensamento analógico, uma “metonímia teológica”.
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A identificação do alimento sagrado com a divindade representa o ponto culminante da tensão da consciência religiosa, que busca uma certeza tangível de participar da vida divina, seja para o bem-estar e a sobrevivência, seja para assimilar-se ao deus e tornar-se o próprio deus, o que constitui o cerne das religiões de mistério, onde se busca “comer o deus” para assimilar sua vida, poder e ser.
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O homo religiosus necessita de uma certeza concreta e tangível de sua participação na vida divina.
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O objetivo das religiões de mistério é possibilitar ao fiel assimilar-se ao deus pela virtude do alimento sagrado identificado a ele.
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O propósito é “comer o deus” para assimilar sua vida, sua potência e seu próprio ser.
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Nos mistérios de Cibele, a comunhão íntima com a Grande Mãe era o objetivo do banquete sagrado.
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Nos mistérios órficos de Dionísio, o iniciado comia a carne do animal e bebia o vinho, considerados hipóstases do deus, identificando-se a ele.
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Nos mistérios de Mitra, a participação se dava pelo “sacrifício do pão” e absorção do vinho.
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O rito asteca Teoquallo, que significa “comer o deus”, consistia em comer uma estatueta do deus feita de pasta de sementes.
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A escolha da absorção de um alimento como matéria do rito de assimilação ao divino deve-se ao fato de que o ato da nutrição, por ser misterioso e o exemplo mais flagrante de assimilação, constitui o suporte simbólico mais adequado para significar e operar essa assimilação, pois a percepção da intimidade das coisas pela sensação alimentar corresponde analogicamente à intuição espiritual da substância de ordem espiritual.
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O ato de nutrição é um exemplo marcante de assimilação, uma verdadeira transubstanciação.
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A interiorização própria do ato alimentar ajuda a postular uma interioridade nas substâncias.
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A percepção do princípio ativo na intimidade das coisas é resultado de um conhecimento intuitivo.
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A sensação alimentar, por ser uma percepção imediata, corresponde analogicamente à intuição espiritual.
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Compreende-se, assim, que Cristo, para instituir o rito central de sua religião, a forma mais elevada das religiões de mistério, tenha escolhido o sacrifício do pão e do vinho, assimilados por sua ordem à sua própria pessoa, apresentando-se como o “pão vivo” descido do céu, cuja ingestão faz o homem permanecer nele e ele no homem, num processo que inverte a relação comum: se o homem “come o deus”, é na verdade o deus que “come o homem”, elevando-o ao seu plano sobre-humano.
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Na prédica de Cafarnaum, Cristo se autodenomina o “pão vivo” descido do céu.
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O pão que ele dá é a sua carne para a vida do mundo.
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Quem come a sua carne e bebe o seu sangue permanece nele e ele no homem.
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A relação entre o homem e o alimento é invertida no banquete sagrado: o deus, superior, domina o homem.
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Embora se diga que o homem “come o deus”, é, na realidade, “o deus que come o homem”, elevando-o ao seu plano sobre-humano.
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São João Crisóstomo expressa essa união dizendo que o coração do homem “bebe o Senhor e o Senhor bebe o seu coração”, tornando-se ambos Um.
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O vinho, na liturgia, foi escolhido como suporte da presença real do sangue de Cristo devido à sua relação com o fogo e, por conseguinte, com a própria vida, sendo uma “água ígnea” transformada pelo calor solar, símbolo natural do sangue e, no simbolismo eucarístico, o elemento principal correspondente ao espírito de Cristo que anima o corpo representado pelo pão.
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O vinho é uma água ígnea, compenetrada e transformada pela chama solar.
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O vinho é o símbolo natural do sangue, também uma água ígnea que veicula o calor da vida.
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O sangue, na simbologia eucarística, é o elemento principal, correspondente ao espírito de Cristo.
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O vinho, como substituto ritual do sangue, recupera suas significações e propriedades.
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Por sua natureza estimulante, o vinho eleva o homem acima de seu estado normal, fazendo pressentir a beatitude do excessus mentis, a entrada no mundo divino, e, identificado ao sangue da divindade, torna-se o agente de uma alquimia espiritual que transforma o homem mortal e o faz aceder à imortalidade, passando a designar, em muitas tradições místicas, os “mistérios ocultos”.
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O vinho “alegra o coração” do homem, insuflando-lhe vitalidade e ardor.
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A doce embriaguez faz pressentir a beatitude resultante do excessus mentis.
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Identificado ao sangue da divindade, o vinho torna-se agente de uma alquimia espiritual que conduz à imortalidade.
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O vinho passa a designar os “mistérios ocultos” em tradições místicas, como no Zohar e na poesia sufista.
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São Bernardo interpreta a “embriaguez” do “celeiro de vinho” do Cântico dos Cânticos como o quarto grau do amor, a embriaguez de amor da extase.
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A embriaguez espiritual tem sua fonte no festim eucarístico, razão pela qual a comunhão ao cálice, que contém o vinho celeste, sangue e fogo portador do mistério da vida, reveste-se de grande importância, sendo o banquete eucarístico a antecipação do banquete eterno onde a glória divina proporcionará aos eleitos a “eterna embriaguez” de conhecimento e amor.
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Uma antiga oração dos missais romanos pedia: “Sangue de Jesus Cristo, inebria-me”.
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A comunhão ao cálice é de grande importância para o fiel, pois contém o vinho celeste, sangue e fogo portador do mistério da vida.
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O rito bizantino de derramar água quente (zéon) no vinho consagrado invocando o Espírito Santo simboliza o fogo do Espírito que inflama o vinho.
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O banquete eucarístico antecipa o banquete eterno, onde a irradiação da Luz primordial proporcionará aos eleitos a “eterna embriaguez” de que falava Platão.