A estrela é elemento essencial e, abstraídas questões históricas, seu sentido simbólico a vincula à estrela polar e ao Eixo do Mundo, de modo que o eixo passando pela gruta indica a gruta como centro do mundo e lugar de comunicação entre o alto e o baixo, céu e terra, e implica o Cristo como centro ou como o próprio Centro por sua função de Rei do Mundo, ligação que conduz ao simbolismo dos Reis Magos cuja presença na Natividade tem alcance superior ao folclore, pois vêm do Oriente e são associados a uma área tradicional indo-europeia, sendo interpretados com R. Guénon como representantes da tradição ortodoxa primordial e das três funções do Tribhuvana, rei, sacerdote e profeta, significadas por ouro, incenso e mirra, com os presentes identificando o Menino-Deus como Mestre supremo, Rei do Mundo.
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Eixo do mundo: centro e comunicação vertical
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Cristo como Centro e Rei do Mundo
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Reis Magos vindos do Oriente segundo Mateus e associados a Irã e Ásia central
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R. Guénon e o Tribhuvana como tripla função tradicional
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Ouro, incenso e mirra como sinais de realeza, sacerdócio e profecia
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Os elementos dispostos ao redor da gruta evidenciam a supremacia do Menino-Deus como Verbo divino ao reunir anjos no céu, homens na terra sob a forma dos pastores, árvores na montanha e os animais boi e jumento, compondo a escala inteira dos seres entre céu e terra e oferecendo uma síntese cósmica centrada no Cristo como recapitulação da criação, cuja descida restabelece a harmonia entre o alto onde se dá glória a Deus e o baixo onde se dá paz aos homens, conforme a fórmula Gloria in excelsis Deo et in terra pax hominibus.
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Escala dos seres: anjos, humanos, vegetal e animal
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Centralidade do Cristo como recapitulação da criação
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Harmonia entre glória no alto e paz no baixo
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Fórmula litúrgica latina do hino angélico
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A presença do boi e do jumento confirma a articulação entre animais, anjos e Cristo como sinal de Éden reencontrado, paralelamente ao relato de Marcos em que Jesus está com as feras e os anjos o servem, mas permanece a questão específica do porquê desses dois animais na Natividade, cuja representação se apoia no Evangelho apócrifo de São Mateus ao narrar que ambos adoram o Menino na manjedoura e ao relacionar a cena a Isaías e Habacuque sobre o boi conhecer seu senhor e a manifestação entre dois animais.
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Paralelo evangélico: Marcos e a coexistência com feras e anjos
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Fonte apócrifa: Evangelho de São Mateus
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Referências proféticas: Isaías e Habacuque aplicados ao motivo dos dois animais
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Adoração do Menino como reconhecimento do senhorio
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No contexto em que nasceram judaísmo e cristianismo, boi e jumento são os animais mais úteis aos povos sedentários, ligados a sacrifícios e alimento no caso do boi e a transporte e trabalho no caso do jumento, estando ambos incluídos na lei do repouso do sétimo dia em Êxodo e Deuteronômio, o que favoreceu sua leitura como símbolos de realidades superiores.
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Utilidade cotidiana como base para simbolizações estáveis
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Êxodo e Deuteronômio: descanso do sétimo dia estendido aos animais
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Boi como animal sacrificial e jumento como animal de carga e labor
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Uma interpretação associa boi a forças benéficas e jumento a forças contrárias, com boi à direita e jumento à esquerda do Menino em paralelo com o bom e o mau ladrão no Calvário e com o Cristo como Rei do Mundo assegurando equilíbrio, mas tal leitura encontra dificuldade porque o jumento não possui sentido uniformemente maléfico, embora em tradições como a egípcia possa ser ligado a Seth como inimigo de Rê, ao passo que no domínio judaico-cristão e no Próximo Oriente o jumento aparece como montaria de pessoas de condição e de príncipes, como em Débora, nos filhos de Jair e em Abdon, e na vida do Cristo surge na Natividade, na fuga ao Egito e nos Ramos, quando é explicitamente associado à realeza pela profecia de Zacarias em Mateus.
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Interpretação de polaridades direita e esquerda em chave cosmológica
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Egito: Seth e Rê como pano de fundo de um sentido negativo possível
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Bíblia: Débora, filhos de Jair e Abdon como exemplos de montaria digna
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Cristo e o jumento nos Ramos com referência a Zacarias e Mateus
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Jumento como possível símbolo do poder temporal por associação régia
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Um encadeamento simbólico liga o motivo medieval do jumento carregando relíquias ao motivo antigo do jumento portador de mistérios nos ritos de Elêusis, lembrado por Aristófanes na fala de Xântias a Dioniso nas Rãs, e esse elo favorece a leitura do jumento como imagem do poder temporal que sustenta e carrega o poder espiritual.
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Continuidade de uma imagem ritual através de provérbios e usos culturais
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Aristófanes, Xântias e Dioniso como testemunho literário do motivo eleusino
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Elêusis como referência a objetos do culto e bagagens dos iniciados
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Poder temporal como suporte do espiritual na analogia do portar
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O poder espiritual encontra representação animal no boi ou no touro, símbolo da potência criadora divina em múltiplas tradições com nomes como Shiva, Indra, Dioniso, Rê e Zeus, e por consequência o animal pode designar o sacerdote, como na Índia onde é atribuído ao brâmane, o que se articula ao papel sacrificial, alcançando também o cristianismo medieval em que São Lucas tem por atributo o boi por tratar do sacerdócio do Cristo e em que bestiários associam o touro do Tetramorfo à redenção e ao sacrifício do Calvário, ao lado do cordeiro.
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Boi e touro como símbolos de força vital e criação
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Índia: brâmane e atribuição sacerdotal
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Cristianismo medieval: São Lucas e o boi como signo do sacerdócio do Cristo
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Tetramorfo, redenção e Calvário como prolongamentos simbólicos
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Boi e jumento junto ao Menino-Deus simbolizam autoridade espiritual e poder temporal cuja fonte é o Cristo como sacerdote e rei, prefigurando ao mesmo tempo o triunfo dos Ramos com Jesus aclamado rei sobre o jumento e o sacrifício do Calvário em que ele se substitui às vítimas dos holocaustos, e esse simbolismo converge com os presentes dos Magos ao transmitir em nível animal o mesmo testemunho sobre o Rei do Mundo.
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Cristo como fonte de sacerdócio e realeza
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Ramos e Calvário como antecipações inscritas na cena natalina
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Correspondência entre presentes dos Magos e testemunho do mundo animal
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Unidade do tema do Rei do Mundo em múltiplos níveis da criação
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O repouso sabático do sétimo dia anunciado pela Lei se refere ao descanso do Senhor após a criação e também à paz do mundo futuro em que toda a natureza será renovada, de modo que o restabelecimento edênico vinculado ao advento do Messias já se cumpre em princípio no primeiro advento e a Natividade responde à cena do Gênesis em que o homem recebe supremacia sobre os animais, supremacia perdida na queda que arrasta a criação à revolta, sendo restaurada pelo novo Adão quando os animais reconhecem, se submetem e adoram.
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Sábado como figura de paz escatológica e renovação universal
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Isaías e a participação dos animais na restauração da natureza
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Gênesis: domínio humano e desordem após a queda
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Novo Adão como restaurador da realeza do homem celeste
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Reconhecimento animal como sinal do Éden reencontrado
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A cena da Natividade se reveste de alegria com decorado rico e luminosidade de primavera apesar da noite mencionada por Lucas, e ao contrário de representações ocidentais mais realistas e familiares, o ícone antecipa a transfiguração futura do universo e do homem ao mostrar tudo penetrado por luz divina que ilumina por dentro.
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Contraste entre naturalismo ocidental e visão transfiguradora do ícone
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Lucas e a noite como pano de fundo de uma luz de glória
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Luz interna e difusa como marca de uma realidade espiritual já presente
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A gruta obscura funciona como invólucro do tempo novo à maneira de um ovo cosmogônico, contendo o Menino-Deus como germe vindo do céu e recebendo o eixo luminoso que desce da estrela até o coração da caverna para indicar a abertura da porta do céu e a irrupção da graça, e o canto angélico sintetiza o ensinamento teológico ao afirmar que a glória divina resplandece nos céus e aparece na terra como o Filho, chamado pela Escritura de resplendor da glória e luz da luz, trazendo paz e harmonia do Éden restaurado não só aos homens mas também à natureza que espera libertação conforme Romanos.
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Ovo cosmogônico como figura do invólucro do novo ciclo
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Eixo luminoso como sinal de abertura da porta do céu
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Canto angélico: glória no alto e paz na terra como síntese
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Romanos: expectativa de libertação da natureza e participação na glória
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As implicações do simbolismo permanecem inesgotáveis, e uma observação final distingue no Ocidente a estrela de cinco pontas e no Oriente a de seis pontas, sendo a de seis o Selo de Salomão relacionado ao duplo simbolismo da montanha e da gruta pelos dois triângulos inversos que correspondem à pirâmide da montanha e ao esquema da caverna, exprimindo união do celeste e do terrestre e o Homem universal, enquanto a estrela de cinco pontas se relaciona ao homem individual e, aplicada ao Cristo, remete às duas naturezas nele.
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Diferença iconográfica entre cinco e seis pontas
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Selo de Salomão como figura de união céu-terra
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Dois triângulos: montanha e gruta como complementares
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Homem universal e homem individual como dois níveis de leitura
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Duas naturezas do Cristo como aplicação cristológica do duplo símbolo
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Diversas grutas marcam a vida do Cristo, incluindo as da Anunciação, da Tentação, de Getsêmani e do Gólgota, e a caverna do Gólgota sob o lugar da Cruz teria sido convertida em capela dedicada a Adão, com tradição hebraica acolhida por Padres como Ambrósio segundo a qual o crânio de Adão guardado por Noé e depositado por Sem estaria ali para ser lavado pelo sangue divino quando o rochedo se fendesse na morte do Messias, tema tradicional no cristianismo oriental e epílogo simbólico da Natividade ao reiterar a caverna no seio da montanha e a restauração da comunicação entre céu e terra pela Cruz, com atração de todos ao alto segundo a palavra do Cristo.
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Grutas associadas a episódios: Anunciação, Tentação, Getsêmani e Gólgota
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Capela de Adão e tradição do crânio de Adão ligada a Noé e Sem
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Padre nomeado: Ambrósio
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Sangue divino e fenda do rochedo como imagem de redenção do primeiro homem
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Paralelo estrutural: caverna e montanha na Natividade e no Calvário
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Cruz como reabertura da comunicação vertical e atração universal
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A analogia entre caverna e coração é reafirmada por tradições que identificam o coração humano à gruta pela semelhança estrutural do órgão com alvéolos internos e pelo fato de ambos serem centros, de modo que macrocosmo e microcosmo se refletem e o coração é centro físico, sutil e espiritual onde o humano encontra o divino, conforme texto hindu que localiza Agni na caverna do coração como fundamento do mundo eterno.
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Estrutura do coração como imagem cavernosa
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Centro do mundo e centro do ser como correspondência analógica
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Macrocosmo e microcosmo como princípio interpretativo
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Texto hindu: Agni oculto na caverna do coração como fundamento do eterno
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A cena da Natividade no ícone significa simultaneamente no plano macrocosmico o nascimento do Verbo no mundo e no plano microcosmico o nascimento do Verbo no coração como lugar da segunda nascença, em paralelo com o uso iniciático da caverna como local ritual de renascimento, de modo que o coração torna-se a gruta onde o Cristo nasce interiormente para transformar o ser, ecoado por hino latino das Laudes do tempo do Natal que pede o nascimento no coração e por versículo da segunda epístola de Pedro que conclama a esperar a estrela levantar-se nos corações como se levantou sobre a gruta sagrada de Belém.
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Duplo plano: macrocosmo e microcosmo como leituras simultâneas
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Segunda nascença: coração como lugar espiritual do renascimento
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Rituais iniciáticos: caverna como matriz de renascimento simbólico
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Laudes latinas do Natal: pedido de nascimento interior
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Segunda epístola de Pedro: estrela levantando-se nos corações
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Belém como paradigma exterior do acontecimento interior