A morte do Cristo é uma morte vivificante e o prelúdio da ressurreição: “Mistério da Salvação”.
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O mistério da salvação é a revelação de Deus no Logos, o Verbo incarnado; Deus se revela ao mundo na natureza humana para operar a salvação desta natureza.
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Descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo, De tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra; Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade; Com o fim de sermos para louvor da sua glória, nós os que primeiro esperamos em Cristo; Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa. O qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida, para louvor da sua glória. Por isso, ouvindo eu também a fé que entre vós há no Senhor Jesus, e o vosso amor para com todos os santos, Não cesso de dar graças a Deus por vós, lembrando-me de vós nas minhas orações: Para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos dê em seu conhecimento o espírito de sabedoria e de revelação; Tendo iluminados os olhos do vosso entendimento, para que saibais qual seja a esperança da sua vocação, e quais as riquezas da glória da sua herança nos santos; E qual a sobre-excelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder, Que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e pondo-o à sua direita nos céus. Acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro; E sujeitou todas as coisas a seus pés, e sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da igreja, Que é o seu corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todos. (Ef 1:9-23)
Mas a salvação não se deu uma única vez pela morte do Cristo; o fato da redenção deve viver na Igreja por uma presença mística e concreta a cada instante.
Cristo instituiu o rito que devia perpetuar de modo concreto, objetivo, a cada instante, o mistério da salvação, e deus aos discípulos os poderes sobrenaturais de efetivar este rito: “faça isto em memória de Mim; pois cada vez que comeres deste pão e beberes deste cálice, anunciareis Minha morte e confessareis Minha ressurreição até Meu retorno”; “Comemoramos Tua morte senhor, confessamos Tua Ressurreição e esperamos Teu segundo Advento” (Palavras da consagração da missa siríaca).
Por este rito, a Igreja nascida do Sangue de Cristo, é chamada a viver deste sangue, morrendo para o mundo e ressuscitando perpetuamente com Jesus.
Uma Grande Obra une Cristo e Igreja, em três atos: Batismo, Confirmação, Eucaristia.
O mais importante de todos a Eucaristia é um “sacrifício espiritual” (logiki thysia), identificado com uma liturgia exterior, a missa, ação sagrada realizada exteriormente, mas realizada interiormente em cada um de nós pelo Cristo, pela intermediação dos oficiantes.
Esta ação sagrada se denomina “Santos Mistérios” (ta haghia mistiria, sacra mysteria), usa o mesmo termo mystirion que designa a ação sobrenatural do Filho de Deus pela salvação da humanidade e a ação ritual que se aplica ao homem de modo visível.
Expressão “santos mistérios” herdada da antiga Grécia onde designava a liturgia de certos cultos, mais ou menos esotéricos, como o de Eleusis (Eleusinian_Mysteries), que visavam garantir a salvação do indivíduo.
Ideia fundamental dos mystiria é de iniciação à vida divina com vistas à salvação e à imortalidade, fundados sobre um mito (relato sagrado), relatando as ações e sofrimentos de um deus próximo do homem, que viveu outrora, in illo tempore, partilhando os sofrimentos humanos: Zagreus, Osiris, e outros.
O que constitui os mistérios de modo específico é a existência de um rito apropriado, vindo do passado, capaz de renovar e tornar presentes estas ações e estes sofrimentos divinos, como meio de perpetuar a eficacidade para os homens.
Estes deuses realizaram e sofreram in illo tempore um ato pela virtude do qual todos aqueles que nele creem, os mystis, entram em relação ontológica coma divindade, refazem, na iniciação, o percurso e a experiência das provações e do triunfo do deus, e assim obtêm a a salvação e a imortalidade.
Este rito se reveste de uma representação dramática, de caráter figurativo ou de caráter simbólico segundo o caso.
Neste esquema geral reconhece-se aquele da liturgia cristã, liturgia dos mistérios que é a atividade central de nossa religião. Na celebração eucarística estão intimamente unidos dois elementos essenciais do cristianismo: a oração de louvor e de ação de graças e o sacrifício divino.
O modo deste rito de salvação é destinado como memorial: a missa é o “Memorial do Senhor”. Quer dizer que na Divina Liturgia, trata-se de “fazer memória” do sacrifício do Cristo e de toda economia da salvação (anamnesis).
Vê-se o erro da interpretação do protestantismo de Calvino, onde a liturgia da missa destina-se a reavivar a lembrança das benesses de Jesus, e a despertar nossa memória e reaquecer a piedade.
A concepção protestante é totalmente estranha à fé das Igrejas apostólicas do Oriente como do Ocidente para quem, quaisquer que sejam certas divergências teológicas de detalhe, a missa é um sacrifício real, operado pela presença real do Cristo nas oblações.
Deve-se rever o termo “memória” e “comemorar”, que nas línguas modernas têm um sentido diferente do das sociedades tradicionais. A comemoração é o que se pode denominar “memória ritual”; é a celebração de uma obra divina sobre a qual se funda uma comunidade religiosa, celebração que re-presenta, no sentido etimológico da palavra, quer dizer: tornar de novo presente, esta obra obra divina cuja meta é a união do deu e a imortalidade.
Na Grécia antiga, Mnemosyne, a Memória personificada, era a mãe das Musas. Mnemosyne permitia ao poeta estar presente ao passado divino, juntar-se ao tempo dos eventos antigos e sobretudo o mistério das origens. A rememoração para os gregos arcaicos buscava não situar os eventos em um quadro temporal, mas a alcançar o fundo do ser, o original, a realidade primordial, o que equivale a sair do tempo.