A alma, então, atinge o estado de apatheia, ou impassibilidade, que não é rigidez, mas a perfeita tranquilidade oriunda do desapego que suprime o desejo, tornando o espírito impassível ante tudo o que acontece, numa saída voluntária do jogo das ações e reações cósmicas, que a mística islâmica chama de el-fanâ, a “extinção”.
-
O termo apatheia significa etimologicamente “ausência de paixões”, correspondendo à impassibilidade latina.
-
O desapego perfeito, por não querer ser nada, torna todas as coisas indiferentes e o espírito impassível.
-
Esse desapego impassível trans- põe o homem em pureza, desta em simplicidade, e desta em imutabilidade.
-
A pobreza espiritual, como el-fanâ, é a extinção do eu, que conduz à “estação divina” (el-maqamou-l-ilahi), o ponto onde se opera a coincidentia oppositorum, descrita por um autor taoísta como o ponto neutro, o ponto de partida das transformações, onde não há conflitos.
-
O ser conhece então a pax profunda, o “repouso eterno” (eterna requies) do cristianismo e a es-sakinah do sufismo, que é a quietude de Deus, para a qual a alma deve tender, esvaziando-se de vontade, desejo e conhecimento para se tornar o lugar próprio onde Deus possa operar, na mais íntima pobreza onde o espírito é uno com Deus.
-
A pax profunda é o estado de quem, cheio do vazio, está fixado solidamente no repouso, retornando à raiz, ao Princípio.
-
Angelus Silesius identifica Deus como a eterna Quietude, por nada buscar nem querer.
-
Eckhart, no sermão sobre a primeira Bem-aventurança, define a verdadeira pobreza como o homem despojado da sua vontade de criatura, que nada quer, nada deseja e nada sabe.
-
Ao atingir o Fundo (Grund), vazio de todas as coisas e obras, o homem torna-se o lugar próprio para a operação de Deus, e aí Deus é uno com o espírito.
-
O estado supremo da pobreza não é uma aniquilação pura e simples, mas a Plenitude, na qual a alma “deificada”, tendo reencontrado a sua essência eterna, recupera todo o criado sob um modo diverso, contemplando e possuindo todas as coisas à maneira de Deus, conforme a promessa evangélica de que quem perde a vida a encontrará.
-
A alma que se tornou nada possui tudo, e, se nada tem, tudo quer e nada quer, tudo sabe e nada sabe.
-
Tudo o que foi voluntariamente deixado na multiplicidade é restituído na unidade.
-
Quanto mais o homem está desapegado de todas as coisas e voltado para si mesmo, mais clara e racionalmente conhece todas as coisas, apreendendo os modelos eternos delas sem se prender.
-
Um autor taoísta, Lie-tseu, afirma que a quem permanece no não-manifestado todos os seres se manifestam, e que, unido ao Princípio, o espírito estabelecido na simplicidade perfeita atinge a verdadeira razão das coisas na contemplação profunda.
-
A vida de São Francisco de Assis, o Poverello, exemplifica de modo eminente a virtude espiritual da pobreza, cuja revelação lhe terá ocorrido sob a forma visionária de “Nossa Senhora a Pobreza” (Madonna Povertà), num evento fundador da sua vocação, que não deve ser interpretado como mera alegoria poética.
-
Um relato tradicional da Ordem Franciscana, “As Núpcias Místicas do Bem-aventurado Francisco com Nossa Senhora a Pobreza”, narra a visão que esteve na origem da sua vocação.
-
Numa noite de êxtase, Francisco revelou aos companheiros que tomaria por esposa uma mulher tão bela e nobre como nunca se vira, tendo-lhe aparecido Madonna Povertà.
-
A visão terá sido uma revelação fulgurante do seu nada criatural diante de Deus e de todo o seu destino.
-
O relato não deve ser visto apenas como alegoria poética, a exemplo de outras experiências místicas como as de Henrique Suso com a Sabedoria ou de Dante com Beatriz.
-
Francisco experimentou a Pobreza como uma “pessoa” real, cujos traços visíveis, no plano terreno, se revestiram na figura de Santa Clara.
-
A Madonna Povertà surgida a São Francisco é interpretada como a revelação, sob aspecto feminino, da grande Vacuidade, da Essência divina na sua absoluta e fascinante Simplicidade, onde a verdadeira pobreza se enraíza.