O templo egípcio, materialmente, era um edifício complexo denominado “casa do deus” (per neter) ou “palácio do deus” (het neter), cuja estrutura, preservada em exemplares como o de Edfu, se desenvolvia do exterior para o interior passando pelo dromos, obeliscos, pilones, pátio, sala hipostila e santuário, cada parte com funções e simbolismos específicos.
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O templo egípcio era chamado de “casa do deus” (per neter) e “palácio do deus” (het neter).
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O templo de Edfu é um dos mais bem conservados e serve de modelo para compreender a estrutura clássica.
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O acesso se dava por uma via processional (dromos) ladeada de esfinges.
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Dois obeliscos de granito, símbolos solares, erguiam-se diante da fachada.
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A entrada principal era ladeada por dois pilones, que simbolizavam as deusas Ísis e Néftis guardando o deus.
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O interior dividia-se em três partes: o pátio (acessível ao povo), a sala hipostila (acesso restrito) e o santuário (onde ficava a estátua do deus).
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O recinto sagrado incluía ainda jardins, o lago sagrado, capelas, habitações de padres, a “Casa da Vida” e outras dependências.
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A decoração do templo egípcio, com bas-relevos coloridos, variava conforme a parte do edifício: cenas públicas nos pilones e pátio, cenas de oferendas e ritos na sala hipostila, e um simbolismo cósmico geral, com o teto representando a abóbada celeste (estrelas, pássaros), o solo a terra (buquês vegetais) e as colunas formas florais, configurando o templo como uma imagem do mundo.
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Os pilones e o exterior do templo exibiam cenas públicas dos atos de piedade do rei.
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A sala hipostila e áreas internas mostravam oferendas, entronizações e procissões, sem revelar segredos do santuário.
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O templo era concebido como uma imagem do mundo (microcosmo).
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O teto, como abóbada celeste, era decorado com estrelas e pássaros.
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O solo, como a terra, era ornamentado com buquês vegetais nas bases das paredes.
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As colunas tinham formas florais, integrando o simbolismo vegetal à arquitetura.
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A construção do templo obedecia a regras precisas de origem supra-humana, transmitidas por um livro mítico, e iniciava-se com um rito de fundação real que incluía a orientação pelos pontos cardeais, a demarcação do perímetro, a escavação e preenchimento com água para simbolizar o nascimento do templo do oceano primordial, o enterro de objetos votivos nos ângulos e a purificação final com incenso.
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Um “Livro de Fundação dos Templos”, atribuído a Imhotep e de origem celeste, continha as regras da arquitetura sagrada.
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O rei, como único sacerdote, realizava o rito de fundação.
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A orientação do templo era feita por visadas estelares para determinar os eixos cardeais.
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O rei demarcava o perímetro com estacas e corda, escavava o solo e o preenchia com água, simbolizando o surgimento do templo do oceano primordial.
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Objetos votivos (esquadro, nível, pedras preciosas) eram enterrados nos ângulos para assegurar a estabilidade espiritual do edifício.
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O rei purificava o templo com fumigações de incenso e o consagrava à divindade.
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O culto diário no templo, secreto e realizado pelo rei ou seu representante, compreendia três ofícios (manhã, meio-dia e tarde) que seguiam o ritmo solar, sendo o da manhã o mais importante, com a abertura do santuário, a imposição de mãos sobre a estátua para “devolver-lhe a alma”, a oferenda de alimentos e a indumentária do deus, num ritual de profundo simbolismo.
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O culto era secreto, com acesso apenas do rei ou do sacerdote que o representava.
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Havia três ofícios diários correspondentes aos momentos principais do ritmo solar.
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No ofício da manhã, o sacerdote abria as portas do santuário ao nascer do sol.
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O sacerdote impunha as mãos sobre a estátua para que a alma do deus (o sol) retornasse ao seu suporte terrestre.
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Ofertas eram depositadas, incenso queimado e a estátua era vestida e ungida.
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A “Casa da Vida” (per ankh), anexa aos grandes templos, era o centro intelectual e iniciático do Egito, onde o rei e os “Seguidores de Hórus” elaboravam e preservavam a sabedoria egípcia, que abrangia diversas disciplinas (astronomia, matemática, medicina, teologia, etc.) sempre subordinadas à teologia, uma metafísica expressa em linguagem simbólica.
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A “Casa da Vida” era o centro intelectual do templo e do Egito, um centro iniciático.
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Seus membros eram o rei e a elite religiosa e intelectual, os “Seguidores de Hórus”.
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Ali se cultivavam disciplinas como astronomia, geografia, matemática, medicina e arquitetura, todas sob a primazia da teologia.
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A teologia egípcia era uma metafísica expressa em linguagem simbólica.
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O objetivo do saber era encarnar a Conhecimento e manter o fluxo divino através dos mundos.
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A compreensão da ciência egípcia exige abandonar a perspectiva ocidental moderna, que a julga rudimentar com base em manuais técnicos como o Papiro Rhind, pois tal saber era sagrado, secreto, transmitido oralmente e voltado não para si mesmo, mas para a realização da Conhecimento superior e para a criação de técnicas que permitissem ao homem participar desse conhecimento.
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A ciência egípcia era fundada em princípios metafísicos ou teológicos.
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Havia uma distinção entre o mundo da Conhecimento (intuitivo, harmônico) e o mundo do saber (técnico).
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O saber egípcio não deve ser julgado por manuais elementares como o Papiro Rhind.
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A construção das pirâmides e templos atesta conhecimentos matemáticos e geométricos avançados.
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O saber era secreto e transmitido apenas a pessoas qualificadas, por ser uma ciência sagrada.
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O templo egípcio era definido como o lugar (akhet, “horizonte”) onde o mundo infinito e o mundo temporal estavam em contato, tendo por função fazer comunicar o céu e a terra para manter a harmonia da criação (Maât) e orientar a conduta humana, papel que se confundia com o do faraó, o único verdadeiro ministro do culto por encarnar a união dos princípios divinos.
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O templo era o “horizonte” (akhet), ponto de contato entre o infinito e o temporal.
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Sua função era estabelecer a comunicação entre céu e terra.
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O objetivo dessa comunicação era manter o equilíbrio da criação (Maât) e orientar a humanidade.
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O faraó, como “filho de Geb e Nut”, encarnava a união do céu e da terra.
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Por isso, o faraó era o único verdadeiro ministro do culto, responsável por manter o fluxo divino no Egito.
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O faraó, como rei sagrado, “recapitulava” em sua personalidade superior todos os seus súditos, permitindo-lhes aceder, em princípio, ao estado de “homem verdadeiro” e de “homem universal” ou “antropocosmo”, um papel iniciático que o templo desempenhava ao refletir em sua estrutura material uma sucessão de etapas espirituais que conduziam da periferia ao centro, do pátio ao santo dos santos.
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O rei sagrado integrava em si todos os seus súditos, permitindo-lhes o acesso ao estado de “homem verdadeiro”.
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O estado de “homem universal” (antropocosmo) era a meta a ser alcançada.
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O templo desempenhava um papel iniciático nesse processo.
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A estrutura material do templo (pátio → sala hipostila → santuário) correspondia a etapas espirituais.
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O acesso ao santo dos santos, na pessoa real, simbolizava a realização do estado antropocósmico.
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O estudo de Schwaller de Lubicz sobre o templo de Luxor revelou que seu plano, com desvios de eixo, corresponde à sobreposição da imagem de um esqueleto humano, identificando as diferentes partes do edifício com órgãos e centros nervosos, demonstrando que o templo era um livro sobre as funções secretas do corpo humano, entendido como imagem do Homem cósmico.
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O plano do templo de Luxor apresenta desvios de eixo inexplicáveis por razões utilitárias.
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Schwaller descobriu que o traçado do templo correspondia à sobreposição de um esqueleto humano.
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Diferentes salas e partes do templo correspondiam a órgãos como a cabeça, a cavidade bucal, o peito, abdômen, etc.
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Órgãos centrais do intelecto e comandos vitais situavam-se nos santuários.
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O templo de Luxor era um edifício consagrado ao microcosmo humano, ao Homem cósmico.
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A análise do templo de Luxor mostra que ele é uma imagem sensível do homem e do cosmos (símbolo micro e macro cósmico), um corpo humano ampliado às dimensões do universo, oferecendo ao homem individual a imagem do que ele é fundamentalmente como microcosmo, e que a consciência, reflexo do ser divino, deve unificar as funções corporificadas para penetrar na Unidade primordial.
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O templo é uma imagem sensível do homem e do cosmos.
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É um corpo humano ampliado às dimensões do macrocosmo, forma exterior do Homem universal.
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O homem individual encontra ali a imagem de sua natureza fundamental como microcosmo.
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A consciência no homem é o reflexo do ser divino, o “templo no homem”.
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O conhecimento dos elementos da gênese (simbolizados nos santuários) e de seu vínculo espiritual permite ao homem penetrar na Unidade primordial.
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A concepção do templo como instrumento de realização espiritual, ligado ao corpo humano e ao cosmos, não é exclusiva do Egito, encontrando-se também no templo hindu, cujo plano é identificado a Purusha (o Homem cósmico), com seus chakras e divindades localizadas nos membros e órgãos, e no templo cristão, que desde os primeiros padres é visto como imagem do cosmos e do corpo humano, particularmente o corpo de Cristo, o Homem-Deus e Homem universal.
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O plano do templo hindu é identificado a Purusha, o Homem cósmico.
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Os chakras (centros energéticos) no plano são pontos de ligação do homem individual com o Homem universal.
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Divindades são localizadas em carrinhos correspondentes a membros e órgãos vitais.
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A tradição cristã, desde os primeiros padres, vê o templo como imagem do cosmos e do corpo humano.
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As partes do corpo humano (cabeça, corpo, braços, coração) correspondem às partes do edifício (santuário, nave, cruzeiro, altar).
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Esse corpo é o de Cristo, o Homem-Deus e Homem universal, no qual se realiza o mistério teândrico.
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O templo egípcio, particularmente em sua forma mais elaborada como em Luxor, oferece a descrição mais impressionante da concepção geral do templo nas culturas tradicionais: um lugar onde o adorador, ao visitar a divindade, retorna ao centro de seu próprio ser num ato que prefigura sua ressurreição e regeneração final.
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O templo egípcio, em sua forma mais elaborada, exemplifica a concepção geral do templo nas culturas tradicionais.
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A visita à divindade no templo corresponde a um retorno do adorador ao centro de seu próprio ser.
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Esse ato de devoção prefigura a ressurreição e a regeneração final do indivíduo.