A libertação de um prisioneiro conduz primeiro à visão das marionetes, depois à fuga para o mundo exterior e, progressivamente, à contemplação de sombras, reflexos, coisas e finalmente do Sol.
-
Adaptação gradual da visão à luz.
-
Lua e Sol como estágios de iluminação.
-
Realidades exteriores como fonte das aparências internas.
-
A caverna simboliza este mundo e os prisioneiros simbolizam os mortais, cuja falta de objetividade impede ver claramente até mesmo as coisas terrenas, restando-lhes apenas sombras vagas, enquanto o mundo exterior simboliza o outro mundo das realidades espirituais.
-
Preguiça, estupidez e parti pris como causas de falta de objetividade.
-
“Espelho” e visão confusa como condição presente, em contraste com visão face a face.
-
Coisas deste mundo como símbolos de realidades espirituais.
-
Paralelo entre gradações de visão e a progressiva luminosidade do sorriso de Beatriz guiando Dante pelos Sete Céus.
-
A intensificação da percepção intelectual direta acompanha a ascensão na hierarquia dos estados espirituais e relativiza tanto o simples afrouxamento das correntes quanto as pequenas “liberdades” dos prisioneiros que nem desejam ser libertos.
-
Liberação como movimento por etapas no caminho.
-
Liberdade comum como conjunto de pequenas permissões internas à prisão.
-
Indiferença de muitos prisioneiros em relação à libertação.
-
O retorno do liberto ilumina o contraste entre interesses centrados nas sombras e a visão final, e a imagem conduz a reconhecer nos Mensageiros Divinos e fundadores de religiões os seres que retornam para instruir sobre as realidades do alto.
-
Mensageiros Divinos como instrutores do Sol, da Lua e das realidades em plenitude.
-
Alguns prisioneiros acolhem e desejam escapar.
-
Muitos se enfurecem e consideram Profetas loucos ou sonhadores.
-
A crença e a incredulidade distinguem dois prisioneiros, um consciente do cárcere e outro que o nega.
-
A origem da concepção igualitária no Absoluto relaciona-se à possibilidade suprema chamada pelo Cristianismo de “deificação” e expressa no Hinduísmo como “És Isso”, de modo que a necessidade de igualdade é nostalgia de adequação à Presença Divina.
-
Igualdade como aspiração a ser novamente adequado ao Divino.
-
Adequação como maior dos Mistérios.
-
Islame exprime o mistério pela palavra de que o coração do fiel contém o que Céu e Terra não contêm.
-
Os maiores santos são iguais pela igualdade de sua vacuidade receptiva à Plenitude do Infinito, e tal igualdade possui também aspecto celeste ilustrado pelo poema medieval inglês A Pérola.
-
A Pérola narra visão da filha no Paraíso.
-
A filha se diz Rainha dos Céus.
-
Santa Virgem Maria permanece Rainha dos Céus, permitindo reinado compartilhado por sua benevolência.
-
A igualdade social universal aparece como possibilidade humana e como norma do Idade de Ouro, mas na ausência dela torna-se preferível preservar relativa excelência em vez de uma mediocridade igualitária.
-
Idade de Ouro definida como condição “acima das castas”.
-
Preferência por salvaguardar excelência remanescente.
-
Evitação de nivelamento por baixo como risco final.
-
O sistema de castas surge como meio de conservar excelência e beneficiar o conjunto da sociedade, tendo sido aplicado com rigor pelos Hindus que conservaram intacta uma religião extremamente antiga enquanto equivalentes grego, romano e germânico já degeneravam.
-
Castas como salvaguarda de resíduos de excelência.
-
Hindus como caso de rigor metódico.
-
Conservação da religião antiga em sua intelectualidade.
-
Degeneração precoce de equivalentes europeus antigos.
-
A normalização das castas inferiores ao fim do ciclo temporal acompanha a preocupação antiga de frear a multiplicação de tipos humanos inferiores e resistir ao movimento descendente inevitável por métodos diversos.
-
Conservação como objetivo coletivo do mundo antigo.
-
Degenerescência reconhecida como inevitável.
-
Métodos variados de resistência conforme povos e contextos.
-
Um modo mais antigo de conservação consiste em manter à distância causas externas da decadência, como a sedentarização, e conservar contato estreito com a natureza virgem, desde que ritualizado e iluminado por contato verdadeiramente intelectual.
-
Peles-vermelhas como exemplo de afastamento de causas externas.
-
Contato físico e psíquico com a natureza como condição insuficiente sem dimensão intelectual.
-
Ritualização como forma de ordenar a relação com a natureza.
-
A perspectiva atribuída aos Índios entende os objetos como sombras de Realidade e afirma a sacralidade universal (Wakan), sustentando que o mundo está mergulhado em Deus sem identificar Deus com o mundo.
-
Contemplação das essências angélicas e Qualidades Divinas através da natureza.
-
Todo objeto criado como sagrado por ser sombra de Realidade.
-
Rejeição do panteísmo entendido como “Deus no mundo”.
-
Afirmação de que o mundo permanece misteriosamente em Deus.
-
Terra intacta, virgem e sagrada como condição de refletir o Eterno.
-
Essa maneira de viver possibilita dispensar o sistema de castas e manter ordem social como prolongamento virtual da igualdade primordial, sem “proletariado” nem “bourgeoisie” entre os Índios americanos quando não corrompidos pelos Caras Pálidas.
-
Ordem social aristocrática como traço coletivo.
-
Produção de minoria que lembra sacerdotes-reis da alta antiguidade.
-
Corrupção externa como fator de perda de fidelidade a si mesmos.
-
O nomadismo sem contato intelectual oferece apenas proteção parcial, e o termo “primitivo” é usado com pouco discernimento ao confundir preservação natural com primordialidade.
-
Vias de declínio podem divergir amplamente ao longo do tempo.
-
Peles-vermelhas da Idade de Ferro podem ver-se degenerados ante idades mais primordiais.
-
Muitos “selvagens” ditos “primitivos” são descritos como extremamente degenerados.
-
Proximidade à natureza não implica primitividade essencial.
-
Platão considerava que a encarnação da perspectiva intelectual por autoridade espiritual fortemente constituída é a melhor garantia contra a decadência, visão compartilhada com Índios americanos, hindus e teocracias sedentárias sem castas.
-
Autoridade espiritual como garantia prática.
-
Neutralização de discordâncias entre casta e classe como preocupação tardia.
-
“Acidentes” sociais como fator de desajuste entre qualificação natural e posição.
-
A Cristandade preservou a ordem social existente por corresponder parcialmente às castas e instituiu acima uma casta superior aberta a todas as classes, protegida por sacrifícios, enquanto o Islame impôs a pertença superior a todas as classes e enfatizou os “graus”.
-
Casta superior cristã aberta a todas as classes.
-
Sacrifícios como barreira contra intrusos.
-
Islame como apelo ao sacerdote-rei na natureza humana.
-
Igualdade virtual do sacerdócio eclipsa distinções mundanas.
-
Hierarquia espiritual organiza os graus dentro da igualdade.
-
O Estado ideal de Platão, chamado “aristocracia”, exige verdadeiros filósofos como soberanos, equivalentes a santos por terem escapado da caverna e contemplado o “Soleil”, configurando uma teocracia.
-
Soberania imposta mesmo contra a vontade dos filósofos.
-
Visão direta do Sol como critério do verdadeiro filósofo.
-
Capacidade de ir e vir entre a caverna e o mundo do alto.
-
Pontífice e Pontifex como “construtor de ponte” entre planos.
-
A insuficiência pessoal do potentado espiritual não invalida a preciosidade da função, pois a existência do Pontífice afirma a supremacia do espiritual sobre o temporal e orienta coletivamente para a “saída da caverna”.
-
Cargos podem exceder a medida dos que os ocupam.
-
“Solução” moderna reduz o cargo ao tamanho do ocupante.
-
Maneira antiga privilegia paciência e esperança por homem melhor.
-
Função vale independentemente do portador por afirmar orientação espiritual.
-
A hierarquia interior dos santos pode substituir ou compensar a hierarquia exterior, e no Medievo a Cristandade ocidental e oriental, bem como teocracias orientais, exibiram continuidade de grandes santos cuja palavra tinha força de lei.
-
Santos como pontífices em si mesmos, sem depender de função.
-
Cadeia ininterrupta de grandes santos no Ocidente medieval.
-
Influência análoga na Igreja oriental e em teocracias não cristãs.
-
Ordem teocrática fornece autenticidade do sentido geral dos valores.
-
A civilização teocrática existe para favorecer o movimento “contra a corrente”, resistir à deriva “decadente” e instaurar um impulso centrípeto que neutraliza tendências centrífugas da criação, tendo nos santos sua imagem exemplar e prolongamentos nas confrarias místicas.
-
Quadro social como suporte à função religiosa.
-
Santos como encarnação do centrípeto e do contra-corrente.
-
Ordens místicas como extensões da vida do santo fundador.
-
Na Cristandade medieval, uma rede de mosteiros e conventos cobria Europa e Ásia Menor e imprimia ritmo espiritual pelo ciclo anual cristão, gerando turbilhão espiritual que arrastava a coletividade.
-
Presença de centros próximos a cada village.
-
Vivência intensa de Advento, Natal, Epifania, Quaresma, Paixão, Ressurreição, Ascensão, Pentecostes, Assunção, São Miguel e Todos os Anjos, Todos os Santos e Festa dos Mortos.
-
Sucessão de festas patronais como ligação mensal.
-
Turbilhão espiritual como efeito social.
-
Cada centro oferecia instrução religiosa elementar e caridade, e permitia acesso ao ensino mais alto a quem tivesse aptidão enraizada, o que contraria a ideia de “opressão” quando definida por critérios profanos de elevação.
-
Possibilidade de ascensão espiritual mesmo ao filho do mais pobre camponês.
-
Elevação digna entendida como aproximação do Espírito.
-
Títulos e riquezas não configuram tragédia segundo perspectiva monástica.
-
Mesmo o sistema de castas mais rígido deve admitir via ascendente aberta a todos fora das restrições sociais, como no caso dos sannyâsîs no Hinduísmo e do clero cristão onde a origem social perde relevância.
-
Super-casta de monges errantes como realização de igualdade.
-
Clero cristão como analogia de superação de títulos nobiliárquicos.
-
Possibilidade de um camponês tornar-se papa e coroar o imperador.
-
Injustiças e opressões individuais e a distância entre teoria e prática são atribuídas à decrepitude coletiva humana na extrema senilidade, não à teocracia, que teria evitado males piores e preservado esperança de restauração do bem.
-
Degenerescência coletiva como causa de falhas.
-
Teocracia como freio que impede agravamento.
-
Esperança recorrente de retorno do bem como disposição social.
-
O Age de Fer como “idade da escolha entre dois males” contrasta com o Medievo como “idade da escolha do menor mal”, e papas e califas maus são tidos como menos devastadores que figuras laicas como Henrique VIII e Ataturk.
-
A Europa medieval é figurada como doente consciente do desfecho fatal, sofrendo mas com constituição ainda sólida, em contraste com corpo terminal entorpecido por medicamentos que delira melhora enquanto se decompõe.
-
Dor e gemidos como expressão da doença.
-
Coração forte e circulação ainda ativa como sinais de vigor.
-
Momentos de trégua como memória de juventude e saúde.
-
Estado terminal como atrofia periférica e autoilusão de melhora.
-
A possibilidade individual de escapar positivamente do movimento geral apoia-se na necessidade metafísica de que um “melhor” possa sair do mal, de modo que a vaidade do mundo torna-se hoje mais audível pela própria decrepitude do mundo.
-
“Toda nuvem tem um lado positivo” como princípio.
-
Onipresença Divina como fundamento da possibilidade de bem emergente.
-
Mundo antes silencioso e homens proclamando a vaidade, agora inversão em que o mundo “grita” sua vaidade.
-
Falsos deuses ligados às mãos dos homens caem em pó.
-
A distinção entre perder a fé neste mundo e crer no outro é recusada como simplista, pois permanece herança de ancestrais para quem a porta entre os dois mundos estava aberta, e cessar de “raspar o chão” pode reativar a tentativa de voo.
-
Descendência de homens cuja fronteira entre mundos era porta aberta.
-
Herança psíquica recebida independentemente de consciência.
-
Imagem do pássaro que não voa enquanto insiste em raspar o solo.
-
Possibilidade de ensaio de elevação quando cessa a fixação ao chão.