A peça “Conto de inverno” é o paralelo mais próximo com a “Divina comédia” de Dante entre todas as obras de Shakespeare, embora não alcance a mesma extensão, e estrutura-se em três partes distintas para Leontes, com o Inferno e o Purgatório representados separadamente.
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A primeira parte da peça trata da descoberta do mal oculto na alma de Leontes, cuja grande falta é profanar as forças do Espírito, representadas por Hermione, ao usá-las para um propósito trivial, como persuadir Polixenes a ficar, desperdiçando seu poder irresistível.
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Após Hermione convencer Polixenes a prolongar a visita, Leontes começa a suspeitar de adultério entre eles, ordena a Camilo que envenene Polixenes e, diante da recusa de Camilo, este foge com Polixenes para a Boêmia.
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O ciúme de Leontes não deve ser comparado ao de Otelo, pois Leontes é como Otelo com Iago dentro de si, não havendo personificação exterior do mal, e os outros personagens atuam como anjos guardiães enquanto Leontes afunda no Inferno, estando “em rebelião contra si mesmo”.
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A substância psíquica perdida precisa ser redescoberta e purificada, e Leontes, ao despertar elementos adormecidos, é subjugado por eles, mas salva-se ao submeter a questão ao julgamento de Apolo, enviando mensageiros a Delfos.
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Após renegar a filha recém-nascida e enviá-la para um lugar deserto, Leontes coloca Hermione em julgamento por adultério, e o oráculo de Apolo declara a inocência dela, de Polixenes e de Camilo, afirmando que Leontes é um tirano ciumento e que viverá sem um herdeiro até que o que foi perdido seja encontrado.
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Ao blasfemar contra o oráculo, dizendo não haver verdade nele, Leontes atinge a mais baixa profundidade do Inferno com sua impiedade, e o castigo é imediato: a morte de seu filho, o Príncipe Mamílio, o que aniquila instantaneamente toda a rebelião em sua alma, fazendo cair a venda de seus olhos e levando-o a um arrependimento completo, seguido pela notícia da morte de Hermione.