O termo “gosto” (dhawq) é usado pelos sufis para designar o conhecimento direto do coração, em oposição ao conhecimento indireto da mente, e essa transposição de um termo sensorial para o conhecimento espiritual funda-se na lei universal da analogia e complementaridade entre os diferentes mundos, onde o conhecimento sensorial, sendo o modo mais baixo de percepção, é a sombra terrena dos arquétipos celestiais e, portanto, o mais apto a evocar, por inversão, a direta experiência do coração.
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Ghazālī define o sufismo como dhawq (gosto), um conhecimento direto que pertence ao topo da alma e ao limiar do Céu.
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A lei universal que rege essa transposição baseia-se no fato de que Deus é Amor e que todas as relações positivas têm seus Arquétipos Indivisivelmente Unidos na Perfeição da Essência Divina, resultando na polarização das Qualidades Divinas em Majestade e Beleza, cuja afinidade e complementaridade se refletem em todas as relações, sejam horizontais (no mesmo plano) ou verticais (entre mundos superiores e inferiores).
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A harmonia do universo depende de semelhanças e diferenças, e a complementaridade implica inversão, como na imagem refletida de uma montanha num lago, um protótipo natural do Selo de Salomão, símbolo da União das Perfeições Ativa e Passiva e de todos os pares que são imagens dessa União.
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O Selo de Salomão, com seus dois triângulos entrelaçados, figura a relação entre o conhecimento direto do coração (vértice superior), o conhecimento dos sentidos (vértice inferior) e o conhecimento indireto da mente (bases entrelaçadas), mostrando que para saber como é o conhecimento do coração deve-se consultar os sentidos quanto à direta, embora um abismo separe a fugacidade e estreiteza do conhecimento sensorial da vastidão e permanência do “gosto” espiritual.
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O vértice superior do triângulo voltado para cima representa a experiência direta do coração das Verdades Espirituais.
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O vértice inferior do triângulo voltado para baixo representa o gosto literal, o conhecimento sensorial.
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As duas bases entrelaçadas representam o conhecimento indireto da mente, derivado das duas experiências diretas.
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O símbolo ensina que a direta deve ser consultada para se compreender a direta do coração, mas também figura o abismo que separa os sentidos do coração: o conhecimento sensorial é mais estreito e fugaz, enquanto o “gosto” espiritual é o mais vasto e duradouro.
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O Selo de Salomão é uma chave para a interpretação das descrições corânicas do Paraíso em termos de prazeres sensoriais, pois estes são as projeções terrenas ou sombras dos arquétipos paradisíacos, e a “amarra” que liga o símbolo à sua realidade pode tornar-se, na direção oposta, uma corda vibrante de lembrança espiritual, re-dotando a vida na terra com uma dimensão perdida.
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As descrições corânicas do Paraíso falam em termos de prazeres dos sentidos, que são as sombras terrenas dos arquétipos celestiais.
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Essas descrições servem para lembrar a alma de que o Paraíso é intensamente desejável e para re-dotar a vida na terra com uma dimensão perdida.
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O que distingue o misticismo islâmico é a busca pelo ideal do homem tal como foi criado, em conformidade com o Jardim do Éden, personificado pelo Profeta, cuja harmonia de opostos—extroversão equilibrada e dominada pela introversão—é típica da religião primordial, e cuja mensagem, chegando no fim do ciclo, oferece novamente à humanidade o Livro da Natureza, a Revelação Primordial, cujos hieróglifos são todas as criaturas e fenômenos, a serem lidos como “sinais”.
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A reivindicação do Islã de ser uma restauração da religião primordial justifica-se sobretudo em virtude de seu misticismo.
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O sufismo busca o “estado primordial” como base para a ascensão espiritual, mas o que o distingue é que seu ideal é o homem conforme foi criado, em harmonia com o Paraíso Terrestre.
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O Profeta personifica a resolução harmoniosa de opostos: uma intensa extroversão equilibrada e dominada por uma intensa introversão, a “atração da Hora” que coincide com o magnetismo do Coração.
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Um dito do Profeta sobre o perfume, as mulheres e a oração como fontes de frescor para os olhos é tipicamente representativo da religião primordial, com sua exterioridade para interioridade.
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A mensagem do Alcorão, como Mensageiro no fim do ciclo, oferece novamente o Livro da Natureza, a Revelação Primordial, cujos sinais são todas as coisas, que devem ser meditados como “sinais” de Deus.
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Esta exterioridade para o bem da interioridade que caracteriza o sufismo pode ser figurada por uma linha que une os dois vértices do Selo de Salomão, a “corda de lembrança espiritual” que deve ser feita vibrar para que a faculdade de percepção direta interior (o coração) seja despertada, e a vibração, visando o Infinito, é uma variante da onda de refluxo que é a imagem inicial, sendo o sufismo a doutrina e o método desse objetivo.
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A faculdade de percepção direta exterior (sentidos) deve ser conectada com a faculdade de percepção direta interior (coração).
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Essa conexão é a “corda de lembrança espiritual” que, ao vibrar, desperta a faculdade interior e visa o Infinito, prolongando-se para além do limiar do Céu.
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Retoma-se a questão do que é que reflui: é o centro de consciência que reflui, e o termo “coração”, por ser subjetivamente não estacionário, pode denotar a Lua interior, o Sol interior ou a própria Essência.
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A definição profética de iḥsān (excelência), “adorar a Deus como se O visses”, contém a regra do “como se” (ka’annaka) que é central para o método sufi, mas esta regra do idealismo precisa ser combinada com a regra do atualismo, a consciência aguda da queda do homem, que torna os símbolos naturais insuficientes para operar a vibração necessária, exigindo o auxílio de uma “espada forjada no Céu”, sobretudo o Nome Divino, cuja invocação (dhikr) é o polimento do coração.
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O “como se” (ka’annaka) da definição de iḥsān é a regra do idealismo no método sufi.
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Esta regra precisa ser combinada com a regra do atualismo, a consciência aguda da queda do homem, que torna os símbolos naturais insuficientes para penetrar o coração do homem caído.
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O pressentimento dos estados superiores, embora uma qualificação, é insuficiente por si só, necessitando ser consagrado por uma “espada forjada no Céu”, uma “incantação celeste”, acima de tudo o Nome Divino.
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O Dhikr Allāh (Invocação de Deus) é um nome do Profeta e, segundo o Alcorão, é “maior” que a oração ritual, sendo o polimento do coração, conforme o dito profético.
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Embora a invocação do Nome Supremo seja a prática suprema, o termo Dhikr Allāh estende-se a outros ritos, como a recitação do Alcorão, cujo poder de fazer os corações se tornarem flexíveis à lembrança de Deus autoriza o uso de movimentos exteriores, como a dança sagrada, como meio para a concentração interior.
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O Alcorão descreve seu próprio poder de fazer a pele e os corações se tornarem flexíveis (ou suavizarem) à lembrança de Deus.
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Os sufis encontram nessa passagem autoridade para usar movimentos exteriores, como o balanço do corpo na dança sagrada, como meio para a concentração interior.
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A barreira ao acesso ao coração, descrita como dureza, ferrugem, nuvens sobre a lua ou um dragão, justifica a necessidade da religião ordinária e do envio de Mensageiros especiais, cujos corações totalmente operantes recebem a Revelação, e os místicos, para quem a barreira é relativamente transparente, buscam identificar-se com o Profeta e fazer refluir a Revelação como se tivesse vindo diretamente aos seus corações, o que é possível apenas com base na certeza.
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A barreira ao acesso ao Coração é o resultado direto da queda do homem.
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Se não fosse por essa barreira, não haveria necessidade de religião no sentido ordinário, pois a Revelação viria diretamente a cada homem em seu coração.
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Um Mensageiro especial é enviado para transmitir o que seu coração recebe, mas entre os Profetas e a maioria está a minoria dos místicos, para quem a barreira é relativamente transparente.
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O místico busca identificar-se com o Profeta e fazer refluir a Revelação como se tivesse vindo diretamente ao seu coração, o que só é possível com base na certeza.
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A certeza (yaqīn) distingue-se da convicção por ser direta e pertencer ao coração, podendo ser resultado da percepção sensorial ou, em seu sentido espiritual, do conhecimento do coração, e as faculdades de intuição no topo da alma podem participar dessa certeza de forma fragmentária; o sufismo define três graus de certeza em relação à Verdade Divina simbolizada pelo fogo: a Ciência da Certeza (ouvir falar do fogo), o Olho da Certeza (ver as chamas) e a Verdade da Certeza (ser consumido pelo fogo).
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A convicção é indireta e pertence à mente, enquanto a certeza é direta e pertence ao coração.
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No sentido espiritual, a certeza é o resultado do conhecimento do coração, mas as faculdades de intuição no topo da alma, devido à transparência da barreira, podem possuir uma fé que é certeza.
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Os três graus de certeza são: a Ciência da Certeza (ʿilm al-yaqīn), que é a certeza de ouvir descrever o fogo; o Olho da Certeza (ʿayn al-yaqīn), que é a certeza de ver as chamas, grau do conhecimento do coração; e a Verdade da Certeza (ḥaqq al-yaqīn), que é a certeza de ser consumido pelo fogo, a extinção (fanā') de toda alteridade na Identidade Suprema.
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A função da doutrina é despertar as faculdades de intuição que circundam o coração e torná-las operativas.