A estrutura alegórica e anagógica da peça, segundo Martin
Lings, corresponde à arquitetura da Divina comédia: o homem decaído encontra-se entre duas perfeições, o Rei Hamlet morto simbolizando a Era Edênica perdida e Fortimbras o Milênio por vir; o Inferno e o Purgatório juntos constituem os Pequenos Mistérios, e a oração de adeus de Horácio — que voos de anjos o conduzam, cantando, para o descanso — anuncia o Paraíso.
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A Rainha, Laertes, Ofélia e até Rosencrantz e Guildestern são, cada qual, peregrinos ou obstáculos nesse percurso; a vasta tela sobre a qual é tecida a tragédia tem dimensões quase épicas que favorecem o reconhecimento de mais de uma Qualquer Pessoa, cada qual com seu próprio caminho individual.
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O modo sintético de interpretação permite também ler Gertrudes como a alma decaída do próprio Hamlet, e Ofélia como tudo o que ele sacrificou nesta vida tendo em vista a próxima — para onde ela própria se transferiu antes do fim da peça.