O aspecto anagógico dos Pequenos Mistérios, que se sobrepõe ao sentido literal, está relacionado à recuperação de joias perdidas, isto é, à liberação da substância psíquica redescoberta e resgatada do domínio do diabo.
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Em “Otelo”, a degradação do homem caído é representada como cegueira; em “Medida por medida”, a ênfase está na incompletude, especialmente no caso de Ângelo.
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Ângelo, no início da peça, parece quase perfeito, mas é um mero fragmento humano; o Duque, consciente disso e do desejo de perfeição de Ângelo, concede-lhe a vice-regência não para prejudicá-lo, mas para ajudá-lo a se conhecer, iniciando sua descida às profundezas ocultas de sua própria alma.
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A via espiritual exige que os elementos psíquicos pervertidos, antes adormecidos, sejam despertados para serem resgatados e purificados, mas esse despertar num estado de perversão raivosa traz o risco de subjugar toda a alma, o que ocorre com Ângelo quando, ao ver Isabel, é subitamente subjugado por uma cobiça irresistível.
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A queda momentânea de Ângelo diante de seu ego inferior era necessária para que seu orgulho fosse quebrado, e ele é salvo por sua sinceridade básica que segue a Graça Divina personificada pelo Duque.
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O caos na alma de Ângelo é reduzido à ordem na cena final pelo lampejo de verdade trazido pela aparição do Duque, dando início a um Purgatório intenso onde Ângelo morre como se tivesse morrido dez mil vezes; sua alma, antes fragmentada, tornou-se completa com a adição de seus defeitos, que são então purificados, como observa Mariana ao dizer que os melhores homens são moldados a partir de seus defeitos.